DB ACAUÃ - Pré-história

Baden Powell
Lady Olave
Baden Powell e Lady Olave
Brasil

Quer testar seus conhecimentos sobre BP? Então tente responder o Nível 1 e o Nível 2 de nossos animados quizzes!

Baden Powell >>> Mafeking, África do Sul. Começo do século XX: centenas de soldados ingleses preparam suas trincheiras para combaterem os Bôeres. Apreensivos, os inimigos observam à distância o treinamento exaustivo dos britânicos, que se ocupavam em esticar e arrumar fileiras e fileiras de arame farpado, para depois lançarem-se sobre os mesmos e rastejar com flexibilidade e destreza. Se os bôeres pudessem aproximar-se um pouco mais da cena, com certeza não se preocupariam tanto com defesa tão bem articulada. Tratava-se de centenas de soldados rastejando e rolando entre obstáculos invisíveis, esticando arames imaginários com uma seriedade inpecável. Não era o prenúncio de alucinações coletivas nem loucura de militares em guerra, era a solução de um oficial inglês para a falta de arame farpado que atormentava as trincheiras britânicas. O militar percebera que nunca era possível ver de longe o arame que protegia as tropas, assim, os inimigos não teriam condições de saber que ali não havia arame algum. O oficial que resolvera o problema com esse truque simples chamava-se Baden Powell.

Robert Stephenson Smith Baden-Powell nasceu em Londres, a 22 de fevereiro de 1857. Era filho do reverendo H.G. Baden-Powell, cientista e professor em Oxford, e de Henrieta Smith, filha de um almirante inglês.

Seu pai morreu quando Robert tinha perto de três anos, deixando sua mãe com sete filhos. O mais velho, Warington, tinha treze anos, e o mais novo, Baden Fletcher, um mês. BP tinha quatro irmãos mais velhos, um dos quais morreu logo em 1962, além de uma irmã e um irmão mais novos. Sua mãe achava que era melhor para seus filhos que ela os deixassem livres, procurando seu próprio caminho por si mesmos, dessa maneira o grupo teve uma infância bastante emocionante.

Warington, o líder da turma de irmãos, entrou em 1858 para o navio escola Conway. O seu entusiasmo pelo mar era tal que, sempre que tinha férias, levava a família em excursões de barco. Como eles não tinham dinheiro pra comprar material de navegação e barcos, improvisavam usando caixas resistentes e valendo-se de suas habilidades. Algumas vezes esse jeito de improvisar rendeu-lhes momentos que quase terminaram em tragédia, como quando uma ventania os pegou de surpresa, logo após um cruzeiro à Noruega, fazendo-os perder o rumo, ficarem doentes e passarem uma noite sem rumo na embarcação.

Além das aventuras no mar, os irmãos acampavam muito pelo país, carregando o mínimo de coisas possível, dormindo em celeiros ou sobre cercas e preparando suas próprias refeições. Certa vez sua mãe havia alugado uma cabana no País de Gales para passarem as férias, e os irmãos acharam extremamente besta irem todos de trem. Assim, organizaram uma espécie de bivaque, descendo o Tâmisa de bote e acampando todas as noites nos arredores. Levaram um tempo caminhando com o barco e navegando por rios, até conseguirem chegar ao País de Gales e juntarem-se à mãe.

Como um dos mais novos do grupo, sobrava para Robert os trabalhos mais esquisitos e recusados pela turma, como lavar a louça. Isso porque sua experiência em cozinha não era das melhores: uma vez, ao preparar uma sopa, ela ficou tão repugnante que BP foi obrigado a "comer essa gororoba sozinho", e foi o que teve que fazer. (Aparentemente BP ficaria muito à vontade entre os bandeirantes de hoje, a julgar pelas nhacas que preparava nos acampamentos)

Assim, vivendo uma vida ao ar livre com seus irmãos, excursionando e acampando o pequenino BP aprendeu a manobrar um barco, cozinhar, cuidar de si mesmo, viver em equipe, comer jaboticabas e matar passarinhos com estilingue. (a-ha! era só pra ver se vc estava prestando atenção)

Em 1869 BP entrou na Escola de Charterhouse. O colégio possuía uma pequena mata, vedada aos alunos, mas acertou quem disse que Robert nunca iria levar a sério as recomendações de manter-se longe do bosque. Pelo contrário, era entre aquelas árvores que BP mais gostava de ficar, observando os pássaros e animais para aprender seus hábitos, desenvolvendo suas habilidades na construção de abrigos, subindo nas árvores e tentando ocultar-se dos seus superiores. Aprendera, assim, a primeira lição de tocaia: manter-se 'congelado', pois uma criatura parada é raramente percebida.

Era popular na escola, mas não era um estudante de grande evidência ou um grande atleta, embora tomasse parte em muitas atividades com toda a energia que tinha. Destacou-se como goleiro da equipe de futebol de Chaterhouse, tinha habilidade para desenhar, cantar canções e para representar, e em toda a sua vida usou em cheio todos estas vocações. Aos poucos revelou seu enorme talento para o humor, preparando esquetes cômicas tão bem quanto fazia desenhos e pinturas sérias. Desde pequeno descobriu que conseguia usar as duas mãos com igual habilidade, e às vezes brincava, surpreendendo seus amigos, de desenhar com uma mão e pintar com a outra ao mesmo tempo. Por isso é sempre difícil precisar com que mão foi escrita qualquer um de seus documentos.

Ele nunca fazia as coisas só porque outras pessoas faziam, gostava de experimentá-las com suas próprias idéias e não se incomodava muito com as críticas sobre ele, por isso seus colegas o achavam bastante esquisito. Mas BP não tava nem aí.

Quando saiu da escola já sabia o que queria. Embora sua mãe preferisse que Robert seguisse a mesma carreira de seus irmãos, em Oxford, ele decidiu alistar-se ao Exército. Quando fez o teste de aptidão militar, tirou nota tão alta que foi dispensado de fazer o treinamento habitual, indo direto para a patente de tenente (rimou!) e partindo imediatamente (rimas! isso eh mágico!) para a Índia (1876). Lá fez muitos amigos e afeiçoou-se principalmente às crianças dos oficiais, que adoravam ouvir dele histórias engraçadas, vê-lo pintar figuras e marchar cantando músicas. BP passava os dias ocultando-se nas matas e observando os animais selvagens, montando cavalos e caçando javalis. Também produzia peças teatrais para entreter os soldados, atuando, cantando, pintando cenários, tudo sob dificuldades: muitas vezes suas peças eram encenadas em um palco demarcado por espadas, porque, se irrompesse um ataque no meio da cena, elas poderiam ser rapidamente usadas.

Tudo isso era a parte leve de sua vida militar: BP dedicava-se aos treinamentos e cursos de sobrevivência com a mesma energia com que desempenhava suas outras tarefas. Era perito em exploração e espionagem, e, por muitas vezes recuperava cavalos perdidos e descobria atalhos melhores para os soldados e a montaria. Devido a esses acontecimentos, logo foi promovido a Capitão. Após um tempo, como a guerra na região havia terminado, o regimento foi dispensado.

Como crescia um atrito entre os Bôeres (descendentes de holandeses) e britânicos na África do Sul, o regimento desembarcou em Porto Natal (Durban) ao invés de ir direto pra casa. "Mas por que aquela gente estava brigando na África?" , pergunta o leitor curioso. "Não podiam brigar mais perto de casa?" Humm, o que vc fazia nas aulas de história? Alguém deve se lembrar que na época haviam sido descobertas ricas jazidas de diamantes e minérios preciosos no sul da África, e isso atraiu elevado número de estrangeiros (principalmente ingleses, que expandiam seu imperialismo), em busca das riquezas existentes. Acontece que lá já viviam felizes e contentes alguns descendentes holandeses, todos loiros e de tranças, que faziam seus favos e eram chamados Bôeres. Como eles não queriam submeter-se ao domínio estrangeiro, emigraram para outras regiões do país e fundaram duas colônias: o Estado Livre de Orange e Transvaal.

As Colônias fundadas pelos britânicos eram Cape Colony (Província do Cabo) e Natal. Entre as repúblicas bôeres e o Oceano Índico estava Natal; a fronteira era marcada pelas Montanhas Drakensberg, alticíssimas (sik) (sic). Crescia o atrito e os britânicos queriam tomar conta da região inteira.Tudo indicava que não ia ser tarefa fácil para os britânicos de Natal passar para o outro lado das montanhas -- as boas passagens estavam guardadas pelo exército inimigo, e por toda a sua extensão haviam armadilhas mortais. O Coronel do regimento sabia desses problemas, e resolveu mandar alguém para descobrir outras maneiras de passar pelas montanhas. E lá foi Baden Powell, animado como uma criança a fazer estripolias.

Robert planejou suas ações cuidadosamente. Deixou crescer uma barba e vestiu-se como os homens da região, para não despertar suspeitas. E assim fingiu-se de jornalista e conseguiu dados importantíssimos sobre a região e tática dos bôeres, aprendeu os costumes e até fez amigos entre os batavos (!!). Sua missão estava cumprida, e ele retornou à Inglaterra, onde distraiu-se montando um grupo de teatro que encenava suas peças no interior do país.

Em 1887 foi de novo para África como ajudante de campo de seu tio, que era Governador da Província do Cabo. BP satisfez o seu primeiro desejo de serviço ativo numa campanha contra os Zulus. Em seguida fez serviço em Malta e simultaneamente foi nomeado Oficial de Informação para o Mediterrâneo, o que incentivou BP a usar ainda mais seus truques de espionagem e exploração. Uma vez conseguiu despistar os sentinelas noturnos e posicionou-se no alto de uma montanha que fornecia uma visão total do campo inimigo. Acontece que, ao amanhecer, passava por lá um grupo de oficiais daquele campo, que inevitavelmente o veriam em posição de observação. Descaradamente ele começou a desenhar, e, quando foi interrogado, explicou que estava fazendo estudos para um quadro sobre "o Amanhecer entre as Montanhas". Seu talento era tão óbvio que a explicação foi aceita. Os oficiais dividiram seu café da manhã com ele, e logo BP pôde seguir as operações com a ajuda de seus mapas. No fim do dia ele havia aprendido tudo o que queria saber sobre os métodos que os inimigos inventaram para a guerra nas montanhas.

Logo ele estava de volta ao seu regimento (o 13o.), que estava na Irlanda. No caminho BP ainda visitou a Argélia e a Tunísia, sempre observando a tudo e a todos (como uma fadinha) com seus olhos treinados. Em 1893 foi escolhido para uma missão especial contra os Ashanti (oeste da África). O rei nativo estava a perturbar a ordem e foi enviada uma expedição para colocá-lo nos trilhos. Isto obrigou-o a uma marcha de mais de 200 km através de densos bosques e florestas e a atravessar numerosos rios. Nesta expedição o trabalho de BP era a exploração e o pioneirismo; assim aprendeu a maneira prática e útil de construir pontes. Foi quando estava no Oeste Africano que organizou verdadeiras patrulhas com os nativos, criando uniformes e líderes para encorajá-los a não desistirem de seus intentos, e ouviu o sábio ditado: "Devagar devagarinho se apanha o macaquinho". Tornou-se um de seus ditados preferidos, obviamente.

Pôs um chapéu de cowboy pela primeira vez na operação dos Ashanti e os nativos chamaram-lhe, por isso, "Kantankye" ou "o homem do chapéu grande". A expedição foi vencedora, e Baden Powell, aos 39 anos, retornou ao seu regimento na Irlanda com a patente de Coronel.

A terra dos Matabeles é agora conhecida por Zimbabwe (antiga Rodésia). Quando ainda não havia exploração considerável no local, os nativos tinham se sublevado e massacrado alguns colonos, fugindo depois para as montanhas. A tribo dos Matabeles não tinha comandante, havendo alguns grupos que agiam independentemente, e eles ainda levavam vantagem por aproveitar ao máximo o território rochoso que tão bem conheciam. Baden Powell foi encarregado da exploração dessas terras. A sua tarefa era quase impossível, pois era preciso descobrir o paradeiro do inimigo, e, ainda por cima, como atingir as suas fortalezas. Perdeu muitas noites nas expedições de exploração, mas era tão bem sucedido que sempre acabava guiando os soldados ao lugar ideal para o ataque. Desenhou mapas absolutamente corretos e de grande valor, e assim começou a se tornar conhecido como um grande explorador. Os Matabeles chamaram-no de "Impeesa" (Impisa), que quer dizer "o lobo que não dorme". A origem da palavra, entretanto, é meio esquisita. Não há lobos na África, e "Impeesa" significa hiena. É possível que Baden-Powell não compreendeu a palavra, porque ser chamado de hiena não é um cumprimento. :(

Em 1897 a campanha terminou, com a tomada do país pelos britânicos, e Baden Powell foi promovido a outro grau de Coronel, o mais alto que podia atingir com 40 anos.

No breve tempo que passou em casa, nesse mesmo ano, publicou um livro chamado "A Campanha de Matabele", que tornou-se muito popular. Logo em seguida Robert foi indicado para liderar o Regimento de Dragão 5, na Índia. Foi com pena que deixou o seu velho regimento; mas lançou-se no novo trabalho com todo o seu habitual entusiasmo e eficiência. Procurou que os seus soldados encontrassem a felicidade mesmo nas dificuldades e conseguiu conquistar-lhes rapidamente a confiança, organizando espetáculos de teatro, competições de caçada de javali, passeios de bicicleta e outros.

Mas a sua realização mais importante foi nos métodos de treino. Primeiro, dividiu seus homens em pequenas unidades de meia dúzia - a que depois no Escotismo foram chamadas Patrulhas, e, no bandeirantismo, Equipes - sob o comando de um deles. Depois percebeu a necessidade de criar uma insígnia especial, um prêmio de eficiência para os que melhor desempenhassem os seus deveres: o distintivo da Flor de Lis -- pois mostra o ponto norte da bússola, um instrumento essencial para o explorador. O método deu certo: os homens se animavam em ganhar esses distintivos, e o sistema foi depois adotado no Exército para outros tipos de conquista. Baden Powell também sabia que o trabalho precisava ser realizado do modo mais interessante e agradável possível. Então ele criou jogos e competições que uniam a prática e a diversão ao mesmo tempo, e o método permaneceu no Escotismo como a forma mais eficiente de aprender qualquer coisa.

Essa forma de treinamento usada por Baden Powell surpreendeu a ele mesmo. Ao invés de perguntarem pro superior o que fazer, os soldados começaram a pensar por eles mesmos, aumentando a confiança em si e nos outros. Todos os métodos e idéias de Baden Powell foram agrupados e posteriormente transformados no livro "Aids to Scouting", uma espécie de manual para exploradores.

Logo que sua missão terminou na Índia e ele voltara a casa, em junho de 1899, Baden Powell foi mandado novamente à África do Sul. A guerra com os bôeres não havia começado ainda, mas era imprescindível que BP fosse criar dois regimentos, um deles em Mafeking, e se preparar para o inevitável.

Robert teve que recrutar seus homens, treiná-los e organizar a força inteira em alguns poucos meses. Isso foi feito graças aos métodos que tinham sido tão bem sucedidos com seus exploradores na Índia. Como havia poucos soldados regulares em Mafeking, B-P treinou os cidadãos capazes de empunhar uma arma, e para isso teve que organizar um grupo de jovens cadetes, os adolescentes da cidade que desempenhavam todas as tarefas de apoio, tais como: cozinha, comunicações, primeiros socorros etc. A maneira como os jovens desempenharam suas tarefas, seus exemplos de dedicação, lealdade, coragem e e responsabilidade, causaram grande impressão em Baden Powell e, anos mais tarde, aquele acontecimento teria grande influência na criação do Escotismo.

A guerra foi declarada em 11 de outubro de 1899, e em 13 de outubro a cidade foi cercada pelas forças bôeres, isolada por ferrovia e telégrafo do mundo exterior. Quando o cerco começou, o regimento britânico estava desarmado, com baixo efetivo e isolado por mais de 6000 soldados bôeres. Mas Baden-Powell estava a cargo da defesas e ele era um expert no "jogo do blefe".

Muitos anos antes B-P havia se disfarçado de caçador de borboleta na Dalmácia para espionar os fortes e defesas alheias. Quando encontrava um soldado inimigo "com o bloco de desenhos na mão, eu poderia perguntá-lo inocentemente se ele tinha visto tal e qual borboleta nas vizinhanças, e como eu estava ansioso por capturá-la. 99% deles não poderiam distinguir uma borboleta de outra - do mesmo modo que eu - assim eu estava em segurança, eles simpatizavam com aquele inglês louco que estava caçando insetos", dizia Baden Powell, no livro de Hillcourt. O que os soldados não notavam era que nos desenhos das asas das borboletas Baden-Powell colocava os mapas dos fortes e defesas.

Voltando à 1899, uma das maiores prioridades foi evitar que os bôeres tomassem a cidade de assalto, pois podiam facilmente dominar as frágeis defesas de Mafeking. Baden-Powell deduziu que eles temiam que houvesse campo minados, e então resolveu confirmar as expectativas dos holandeses. Preparou uma corrente com os habitantes para transportar caixas de metal com terríveis avisos de não derrubar ou bater escritos nelas. Centenas destas caixas foram enterradas nos arredores da cidade, e as áreas foram marcadas com avisos para os habitantes e pastores manterem a área livre. Depois ele pediu para os moradores da cidade se afastarem dos locais enquanto as novas minas eram testadas. Com todo mundo seguro em casa, BP saiu e colocou uma banana de dinamite em um formigueiro. Acendeu o pavio e correu para se proteger até que tudo fosse pelos ares, o que foi feito com um esplêndido estrondo e uma grande nuvem de poeira. Da poeira surgiu um homem com uma bicicleta, que coincidentemente passava, e ele saiu pedalando tão rápido quanto pode em direção ao Transvaal, onde sem dúvida ele contou como por simplesmente pedalar pela estrada ele explodiu uma mina mortal. Acontece que as caixas não estavam cheias de nada mais mortal que areia...

Outro truque usado por BP foi de um viajante que fazia lâmpadas de acetileno. O homem foi colocado para trabalhar na confecção de um holofote utilizando duas latas de biscoitos, com um queimador de acetileno e um tubo de borracha alimentando-o com gás. Este aparato foi preso a um mastro com ponta afiada, o qual poderia ser facilmente cravado no solo. Nessa noite, os holofotes foram acesos e apontados sobre as posições bôeres em um lado da cidade, depois rapidamente desmontados e acesos no outro lado da cidade... Após um tempo os bôeres convenceram-se de que atacar a cidade à noite seria inútil, pois ela estava cercada de holofotes de busca por todos os lados...

O mesmo blefe foi usado com relação ao pequeno suprimento de metralhadoras da tropa. B-P construiu postos para metralhadoras ao redor da cidade, e seus soldados poderiam disparar uma metralhadora de um deles, depois rapidamente removê-la para outro posto e disparar novamente. Para os bôeres parecia que havia dúzias de metralhadoras protegendo a região..

O blefe do arame farpado invisível, no começo deste relato, foi também outro dos famosos truques usados por BP para virar-se com o que lhe foi dado em Mafeking.

Mafeking foi sitiada por 217 dias até que o Exército Britânico chegasse para libertar a cidade. Os defensores tornaram-se heróis do Império Britânico, e Baden Powell tornou-se famoso por suas histórias de blefe e coragem - BP também passou a significar `British Pluck' (coragem britânica). Suas mensagens jocosas como 'Quatro horas de bombardeio. Um cachorro morto.' o fez o herói de todos, e garantiu sua promoção para General. Mas o produto mais famoso do cerco de Mafeking seria o grupo de garotos cadetes, que, sob a liderança de Warner Goodyear, representaram o modelo para o Movimento escoteiro.

Depois de organizar a polícia montada africana, com disciplina e responsabilidade, BP desempenhou o papel de inspetor da Cavalaria inglesa. Certo dia, viu com surpresa que alguns meninos usavam em suas brincadeiras um livro escrito para exploradores do exército e que continha ensinamentos sobre como acampar e sobreviver em regiões selvagens. Era a sua obra "Aids to Scouting", e estava sendo usado também como um compêndio nas escolas masculinas. BP viu nisto uma provocação e um desafio: se um livro para adultos sobre as atividades dos exploradores podia exercer tal atração sobre os rapazes e servir-lhes de fonte de inspiração, outro livro, escrito especialmente para eles, poderia despertar um interesse muito maior!

Pôs-se então a trabalhar, aproveitando e adaptando sua experiência na Índia e na África, entre os Zulús e outras tribos selvagens. Reuniu uma biblioteca especial e estudou nestes livros os métodos usados em todas as épocas para a educação e adestramento dos rapazes, desde os jovens espartanos, os antigos bretões e os peles-vermelhas, até os nossos dias. Lenta e cuidadosamente BP foi desenvolvendo a idéia do escotismo. Queria estar certo de que ela podia ser posta em prática, e, para isso, escreveu cartas a alguns de seus velhos amigos do exército, que eram pais de rapazes de 11 a 14 anos, alunos de famosos colégios particulares. "Proponho-me a realizar um acampamento com 18 rapazes selecionados", escreveu ele, "para aprender Escotismo durante uma semana das férias de agosto (1907).

"O acampamento, por permissão generosa do sr. C. van Raalte, será realizado na Ilha de Brownsea, em Poole". E continuava sua carta delineando o adestramento que os rapazes teriam e assegurando aos pais que "estava cuidadosamente planejado o fornecimento de alimentos, a cozinha e as medidas sanitárias". Incluía também uma lista do material de acampamento e roupas.

Dias depois, enviou convite semelhante às Companhias da Brigada de Rapazes, movimento juvenil já existente antes do Escotismo, dando vagas a seis rapazes de Baumemouth e três de Poole, que fossem alunos de escolas secundárias, ou empregados de fazendas, ou filhos de operários.

O efetivo incialmente previsto elevou-se para vinte e um. Mais tarde, BP decidiu levar como seu ajudante um sobrinho de 9 anos, órfão de pai e convidou seu companheiro de armas, o Major Kenneth McLaren para seu assistente.

No dia 31 de julho todos os participantes do que seria o primeiro acampamento escoteiro do mundo se encontraram na Ilha de Brownsea, na costa sul da Inglaterra, e durante oito dias seguintes puderam viver o que Baden Powell chamava "Esquema do Escotismo". No primeiro dia de acampamento, foram formadas quatro patrulhas: Maçaricos, Corvos, Lobos e Touros, sendo escolhidos os monitores, responsáveis pela condução da patrulha, e distribuídos os demais cargos. Cada patrulha tinha sua própria barraca e era identificada pelas cores das quatro fitas que portavam no ombro e pela bandeirola que os monitores carregavam num bastão.

O programa foi planejado de tal modo que em cada dia fosse abordado um tema específico, os quais foram,

em ordem, a partir do dia 2 de agosto: técnica de acampamento, observação, artes mateiras, cavalheirismo, salvamento de vidas, patriotismo e, no último dia, houve uma demonstração para os pais e outros convidados de todas as habilidades aprendidas.

Durante o acampamento ocorreram fatos pitorescos, com o próprio Baden Powell sendo surpreendido durante um jogo de tocaia por um dos jovens, que apreendera muito bem os seus ensinamentos; e o dono da ilha, sr. van Raalte, sendo capturado por uma patrulha noturna quando tentava surpreender aos acampados com uma incursão surpresa. Os pontos altos foram os fogos de conselho, com os jovens ouvindo extasiados as aventuras de BP nos diversos pontos do planeta.

O acampamento teve um completo êxito, e, nos primeiros meses de 1908, BP lançou em seis fascículos quinzenais o seu manual de adestramento, o "Escotismo para rapazes" - sem sequer sonhar que este livro ia pôr em ação um Movimento que afetaria a juventude do mundo inteiro.

Mal tinha começado a aparecer nas livrarias e nas bancas de jornais o "Escotismo para rapazes", e já surgiam Patrulhas e Tropas Escoteiras - não apenas na Inglaterra, mas em muitos outros países. Os ideais, as atividades e sistema de equipe foram uma grande atração a milhares de jovens de toda a Inglaterra que começaram a praticar essa nova filosofia. Entre os que se juntaram aos Scouts, para surpresa de BP e até consternação, havia um bom número de meninas.

Um grupo delas apareceu sem ser convidado (hehehe) à primeira concentração realizada em Londres, a 4 de setembro de 1909, no Palácio de Cristal, o que levou BP a fundar oficialmente, no ano seguinte, a Girl Guides Association. A presidente seria sua irmã, Agnes Baden-Powell. Esta nova Associação, semelhante à dos Scouts, tinha a finalidade de formar boas cidadãs pela formação do caráter; treiná-las em hábitos de observação, disciplina e confiança própria; incutir nelas lealdade e consideração para com os outros, estimular o desenvolvimento físico, mental e espiritual. Foi graças à forte personalidade de Agnes Baden-Powell e sua influência no meio social que o Bandeirantismo conseguiu sobreviver naqueles tempos difíceis, cheios de preconceitos relativos à educação da mulher.

Em 1912 fez uma viagem ao redor do mundo para entrar em contato com os escoteiro de outros países - foi este o primeiro passo para fazer do Escotismo uma Fraternidade Mundial - e em todos eles foi muito bem recebido. Mas houve uma parte da viagem que não havia sido planejada e trouxe uma mudança enorme à sua vida.

A bordo do Arcadian, cruzando o Atlântico, ele conheceu a srta. Olave St. Clair Soames, e, antes que a viagem terminasse, ele a pediu em casamento. O amor surgiu de imediato, apesar da diferença de idade (32 anos). Mas quem era aquela mocinha que partiu o coraçãozinho de Baden Powell? Vamos pedir licença à BP e falar um pouco mais sobre a animada Olave.

Lady Olave >>> Olave St. Clair Soames nasceu a 22 de fevereiro de 1889, em Dorset, Inglaterra. Sua infância foi feliz e cercada de cuidados. Apesar de sua saúde ter sido precária nos primeiros anos de vida, o contato com a natureza, a vida ao ar livre e as diferentes casas em que morou a transformaram em uma jovem sadia e alegre, dona de uma energia incrível. (Bandeirantes, março de 89)

Olave nunca estudou em colégios e faculdades: foi educada através de aulas particulares (sim, ela era rica). Sempre se interessou por música e chegou a tocar violino muito bem, mas seu trabalho como bandeirante não lhe deu tempo suficiente para se aperfeiçoar. Foi também uma grande desportista e praticou tênis, remo, patinação, equitação e ciclismo.

Ela era rica, mas parece que a vida da sociedade na época (na época??) era monótona e ela queria ser útil. Por ser muito jovem não a aceitaram na Escola de Enfermagem, mas, mesmo assim, trabalhou como voluntária junto aos meninos inválidos, dando-lhes aulas no sanatório de Bournemouth.

Em 1912, aos 23 anos, seu pai a convidou para uma viagem às Índias Ocidentais. Embarcaram no navio Arcadian sem imaginar que seu destino iria mudar totalmente ao longo da travessia. No barco viajava, acompanhado de vários oficiais, Baden Powell, pessoa de grande popularidade e reputação, então com 55 anos (!!).

BP e Olave >>>Um amigo de seu pai apresentou Olave a Robert e entre ambos nasceu um grande amor. Ele era muito mais velho que ela, mas suas idéias e aspirações foram suficientes para compreenderem que haviam nascido um para o outro (e ela não o chamava de "tio"!). Casaram-se no dia 30 de outubro do mesmo ano, e os Escoteiros organizaram uma coleta para comprar um carro de presente ao casal. A lua-de-mel foi passada acampando no norte da África, e Lady Olave logo provou ser uma acampadora de primeira classe. No princípio, Olave Baden Powell curtiu seu novo sobrenome e dedicou-se à educação de seus três filhos: Peter, nascido em 1913; Heather (1915) e Betty (1917).

Em 1916, ano em que começou a ajudar seu marido em seu atarefado trabalho, Olave interessou-se pelo Bandeirantismo e foi nomeada Comissária Regional de Sussex, por seu excelente desempenho (ela era a mulher do dono tb). Em 1918, ao ser eleita Bandeirante-Chefe da Grã Bretanha, já existiam sob sua responsabilidade cerca de 3 mil bandeirantes, frutos de seus incansáveis esforços de recrutamento.

Veio a primeira Guerra Mundial e momentaneamente interrompeu este trabalho; mas com o fim das hostilidades tudo voltou ao normal, e, em 1920, os escoteiros de todas as partes do mundo se reuniram em Londres para a primeira concentração internacional de escoteiros - o Primeiro Jamboree Mundial. Desde então o crescimento do escotismo foi grande e nem as duas guerras mundiais conseguiram enfraquecê-lo. Foi neste primeiro acampamento mundial, chamado de Jamboree, que 20.000 jovens aclamaram BP Escoteiro-Chefe Mundial. Essa foto aí ao lado é do BP em 1930, charmoso e conservado.

Enquanto isso, o Movimento Bandeirante ia se expandindo e muitos países começaram a se interessar pela parada. A fim de organizar melhor a rápida projeção do Movimento, foi constituído um Comitê Internacional e um Conselho Ultramar, ambos precursores da Associação Mundial.

Em 1920 realiza-se a primeira Conferência Internacional para Bandeirantes-Chefe, em Oxford (Inglaterra), seguida de outras em: Cambridge (Inglaterra) 1922; Foxlease (Inglaterra) 1924; e no Centro de Formação Edith Macy (EUA) em 1926. A Associação Mundial (WAGGGS) foi criada durante a Conferência Internacional da Hungria, em 1928. Enquanto isso, Baden Powell continuava fofo e velhinho, como na foto ali do lado, tirada em 1939. Não dá vontade de apertar as bochechas?? (Parece um elfinho)

 

[Momento de Pausa] Há uma velha lenda africana sobre os majestosos elefantes. Quando eles se dão conta de que a morte está próxima, vão para o fundo da mais escura floresta. Lá o elefante morre, escondido do mundo. Baden-Powell escolheu a África para o seu retiro. Depois de vários anos de dedicação ao Escotismo, viajando pelo mundo e fundando Associações Escoteiras em vários países, BP sentiu suas forças declinarem. Então, aos 80 anos de idade, ele e sua esposa Olave Baden-Powell recolheram-se em 1938 para a cidade de Nyeri, no Quênia, para uns poucos anos de 'paz e descanso longe das exigências de Londres'. Era um lugar tranqüilo, com um panorama maravilhoso: florestas de quilômetros de extensão, tendo ao fundo montanhas de picos cobertos de neve. Sua casa, especialmente construída para eles nos terrenos do Outspan Hotel, foi denominada Paxtu, lembrando a sua casa londrina, Pax Hill. Paxtu também é uma palavra Swahili que significa "completa". Diz BP: "Eu chamei a minha casa em Bentley "Pax" porque eu a comprei no dia do Armistício, após a Primeira Guerra Mundial. Eu acho que vou chamar a minha casa aqui de "Pax", também (too em inglês)." Após isto ela sempre foi conhecida como "Paxtoo", ou "Paxtu". B-P. e Lady B-P comemoraram suas bodas de prata em 1937, e escoteiros e bandeirantes de todo o mundo fizeram uma coleta para presenteá-los. O casal utilizou parte do presente de bodas de prata para construir a casa de campo em Nyeri. "Nós a chamamos de 'Paxtu'", diz novamente BP, "uma vez que ela será uma segunda 'Pax' para nós (two=dois em inglês), e uma lembrança permanente da generosa boa vontade do Movimento." Ali, na companhia da esposa, dividia o tempo entre a pintura, a numerosa correspondência e as visitas de amigos. Na madrugada de 8 de janeiro de 1941 (faltando pouco mais de um mês para completar oitenta e quatro anos de idade) BP morreu enquanto dormia. Ele foi enterrado nas encostas do sopé do Monte Quênia, no terreno da Igreja Anglicana de São Pedro. As cinzas de sua mulher foram postas lá depois. A lápide dos dois tem os símbolo mundial do escotismo e do bandeirantismo. Também tem o sinal escoteiro "voltei ao ponto de reunião".

Não podemos simplesmente continuar a história como se BP tivesse saído do caminho estrategicamente. Vamos fazer um rápido passeio a Paxtu. Indo em direção ao Outspan Hotel em Nyeri os visitantes se defrontam com uma placa fixada em uma árvore na curva da estrada. A casa permanece quase igual a quando ela foi construída, apesar do velho teto makuti ter sido substituido por um metálico, e o jardim ter sido drasticamente arrancado em 1964, mas a fonte e a banheira de pássaros permanecem. A casa agora está junta ao bloco principal do hotel com uma série de apartamentos. Por vinte anos, até a morte da Srtª Miss Corbett em 1963, a casa foi habitada por Jim Corbett, velho amigo de BP, e sua irmã Maggie. Em 1964, Escoteiros e Bandeirantes do Quênia contribuíram para a compra de um marco que foi colocado no jardim em frente à casa, o qual porta a seguinte inscrição: "Este monumento foi doado pelos Escoteiros e Bandeirantes do Quênia em memória de Lord Baden-Powell of Gilwell, seu Fundador, que viveu aqui de outubro de 1938 até a sua morte em 8 de janeiro de 1941." Ao mesmo tempo o sinal na alameda de entrada e a placa esculpida em cedro na própria casa foram doadas pela Associação Escoteira do Quênia para manter viva a memória do Fundador, e para guiar os incontáveis visitantes que vêm de toda a parte do globo para visitar a última morada do Fundador e sua tumba no cemitério perto dali.

Com a morte de seu marido, Olave se dedica novamente ao Bandeirantismo. Viaja por muitos lugares, visita 111 países e percorre 900 mil quilômetros (ela tinha batido uma aposta com o Papa). Olave Baden Powell era uma ótima oradora e só lia discursos preparados quando eram para ser traduzidos ou emitidos pelo rádio. Tinha boa memória e sempre foi uma pessoa dedicada ao trabalho.

Como BP, ela não deixou de viajar até completar 80 anos. Continuou respondendo à grande correspondência que chegava a sua casa, situada no Palácio de Hampton Court, Londres. Morreu em junho de 1977, juntando-se à BP.

Brasil >>> No Brasil, o movimento foi criado em 1919. Lady Olave enviou, por meio de um amigo, uma carta à familia Lynch no Rio de Janeiro, pedindo que fundassem a organização feminina.Teve muita sorte, pois essa carta foi parar nas mãos de Jeronyma Mesquita. Ela havia trabalhado como enfermeira durante a guerra e compreendia a necessidade de dar à mulher um papel mais atuante e útil na sociedade. Assim, deu todo o apoio à organização desse movimento pioneiro -- naquela época era quase um escândalo um grupo de moças se uniformizar e se reunir para fazer alguma coisa que valesse a pena.

É bom lembrar que era época da Primeira Guerra. A partir desse momento houve uma revolução: como os homens saíam de suas casas para lutar, a mulher viu-se obrigada a assumir tarefas inusitadas, e aos poucos ia se libertando. Muito da terminologia adotada pelas Girl Guides da época era militar: as coordenadoras eram capitãs, Jeronyma era comandante-em-chefe, havia companhias, patrulhas, cortes de honra, monitora, e todo mundo marchava demais. Havia vários tipos de exercícios: de companhia, de chamada, de primeiros socorros, e as jovens gostavam disso porque era super moderno, avançado, fashion e ousado...

Mas, voltando ao assunto da carta. Em 30 de maio de 1919, as pessoas convocadas por Barclay (o portador da carta de Olave) reuniram-se à Rua São Clemente, na casa de Adèle Francisca Lynch. Barclay contou como havia sido procurado por Lady Baden Powell e declarou que ela teria enorme satisfação ao ver aquele grupo tão representativo reunido ali. Em seguida Edmundo Leonel Lynch (eita nome bonito) leu uma exposição das bases do movimento inglês das Girl Guides. May Mackenzie falou do fascínio que o movimento exercia sobre as meninas do mundo e contou o trabalho que havia realizado durante a guerra. A sra. Eugenio de Barros Lacerda fez, a seguir, um apelo às famílias brasileiras para que apoiassem o novo Movimento. Para terminar, foi organizada a Comissão Executiva sob a presidência da sra. Eugenio de Barros Lacerda, junto com Jeronyma Mesquita, Mons. Rangel, senador Mozart Lago, sra. Antonio Azeredo, May Mackenzie e Clara Santos. A reunião terminou como se esperava: com um chá, servido ao som de uma orquestra. Sim... começamos muito bem.

Em 13 de Agosto de 1919, em casa de May Mackenzie, à Av. Atlântica, 11 jovens faziam sua promessa, fundando o movimento no Brasil. Lady Mackenzie, Clara Santos e o major McCrimmon haviam preparado as garotas durante os dois meses decorridos da primeira reunião. Elas eram as futuras "chefes", e cada qual iria abrir sua "companhia" em diversos bairros do Rio de Janeiro. As onze garotas que fizeram a promessa foram: Edel Ramos, Maria Elisa Silva Costa, Zaira Lisboa, Ivone Masset, Solange Ramos, Gasparina Santos, Kate Bulhões de Carvalho, Heloísa Graça Couto, Phyllis Saville, Rosita Sampaio Bahiana e Clara Santos.

OK, estava fundando o Movimento Bandeirante, mas quase tudo estava por decidir, a começar pelo nome. Foi quando o professor Jonathas Serrano escolheu para nós Bandeirantes, indo buscar na nossa história o sentido pioneiro do Movimento (não foi feliz). Quis dizer "Coragem, Pioneirismo, Procura de riquezas da alma e da alegria pura". Como primeiro fator de implantação, Violet Atkinson Grimshaw, uma chefe inglesa que veio especialmente ao Brasil, Lygia Darcy e Maria de Lourdes Lima Rocha, empreenderam a adaptação dos programas e normas inglesas. O resultado foi o livro "Regras e Organização". Por ocasião da badalada visita dos reis da Bélgica ao Brasil, as bandeirantes, ricas e contentes, apareceram em grande estilo, com aqueles vistosos uniformes brancos, luvinha e tudo o mais. (Espantado? Você ainda não viu nada)

As mulheres continuavam nessa década sua arrancada de libertação. Quando dizemos "mulheres", entenda-se aquelas que participavam da "panelinha" privilegiada, claro. Elas apareciam todas ousadas, com saias acima dos joelhos, dançando charleston, dividindo-se entre 'melindrosas', 'almofadinhas' e o resto do mundo, que se dividia em "miseráveis", "mortos de fome" e "socorro, me ajudem".

O Bandeirantismo procurava se equilibrar e não quebrar a primeira camada de esmalte das unhas: os uniformes se tornavam mais femininos, a nomenclatura menos militarizada, surgiam as especialidades de serviços domésticos (os requisitos delas devem ter ficado os mesmos até uns anos atrás), e até aconteceu um acampamento em Itaipava. Se os escoteiros ficam sabendo disso...

No fim dos cinco primeiros anos da década, o Bandeirantismo estava em crise (oh não! Elas já preferiam os shoppings!). O grupo inicial se dispersara, e a sociedade tradicionalista do Rio de Janeiro olhava com desconfiança um movimento que taxava de protestante, por causa da origem inglesa.

Foi quando veio a salvação (sim! essa parte eh boa). Um jovem entusiasta estivera na Europa com BP e vira o escotismo em ação. Era o Padre Leovigildo França, que, juntamente com Maria de Lourdes Lima Rocha, funda o conjunto escoteiro-bandeirante da Matriz do Sagrado Coração de Jesus. A posição religiosa do movimento ficou clara (a opção ecumênica era pioneira). Havia fadinhas, lobinhos e bandeirantes no Sagrado. E (não mude de canal agora!!!), pela primeira vez tentou-se alargar seu campo de ação, levando-o a escolas municipais, às favelas, aos parques proletários. [Tempo para respirar aliviado]

Aí o MB começa a se espalhar. Em 1931 funda-se uma companhia em campanha, MG e bandeirantes do Espírito Santo acampam em Tucum. (Não deu mesmo pra entender essa parte) Em 1933, funda-se a Região da Bahia; em 1934, do Pará; em 1935, de São Paulo; e em 1937 funda-se a Região do Estado do Rio.

O apagar das luzes da década de 30 viu o mundo novamente em guerra. Como sempre acontece, o desejo de aliviar o sofrimento e superar a destruição e a morte foi fator de motivação para muitas iniciativas positivas. Os serviços de guerra, notadamente na Bahia, junto aos náufragos dos navios torpedeados em nossas costas, tornaram o MB conhecido nacionalmente. E de repente as bandeirantes descobriram o Brasil. Partindo do Rio em grandes excursões, iam semeando o bandeirantismo pelo caminho: a primeira foi aos estados do Sul, em 1942. Seguiram-se outras: ao interior de Minas Gerais, ao Pantanal de Mato Grosso, e até no mar, a bordo do navio-escola Almirante Saldanha, ensinando bandeirantismo às foquinhas.

Década de 50: expansão, visita da Lady Olave ao Brasil etc. Pulemos à década de 60, mais interessante. No início dessa década, o bandeirantismo atingiu o ponto máximo de desenvolvimento até hoje: seu efetivo chegou a beirar os 20 mil membros. Mas, logo a seguir, pela primeira vez desde sua fundação, houve reversão da tendência expansionista: o efetivo diminuiu, em vez de crescer. Isso porque já se notava uma inquietação para uma maior abertura do movimento, e houve reformulações enormes nas bases do MB. Aprendam com isso. O jornal Bandeirantes diz o sentido dessa reformulação: pode-se dizer que foi a maior flexibilidade do programa e do Movimento; a transformação do espírito de liderança bandeirante; o incentivo à criatividade e à liberdade responsável, pela participação da criança, adolescente e jovem na projeção de suas próprias atividades, deixando-os buscar seus próprios caminhos e assumir seus compromissos; a procura de uma maior integração nas comunidades, de uma abertura total a outros grupos (teoria?); o incentivo às atividades mistas e à co-educação. A vida em equipe, a vida ao ar livre, o compromisso e a progressão foram reinterpretados e assumiram ainda maior importância no Movimento. O que será que aconteceu com todo esse discurso hoje??

Uma coisa interessante que aconteceu em 1968, enquanto os jovens do mundo estavam tentando revolucionar a história, foi uma Campanha Nacional de Educação para a Saúde e, em 69, a Cápsula do Tempo. Ironias à parte, materialmente a cápsula é apenas um tubo estanque que encerra documentação sobre o bandeirantismo nos primeiros cinqüenta anos. Foi colocada num monumento, à Av. Franklin Roosevelt, em frente à Sede Nacional, no Rio de Janeiro, para ser aberta em 2019 (aos 100 anos do MB).

A década de 70 foi caracterizada pela abertura e maior participação do MB nas comunidades. Foi a época dos Campos de Trabalho, Festivais, da capacitação intensa da coordenação nacional, do Projeto Natureza e dos bons tempos em que o velho Jimmy tocava banjo na varanda da chácara, com os borrachudos a picar-lhe a fronte. Nessa década foram feitas várias coisas bacanas, como: Festival da Juventude, Festival da Arte Jovem, Equipe Ecumênica, Grupos Mistos, Alfabetização de Adultos, Projeto Criança Hoje e Amanhã etc. Paramos por aqui na década de 70.... O resto você pode conferir hoje, e tirar suas próprias conclusões. A história está aí: fomos pioneiros, e depois o mundo conheceu várias outras alternativas de revolução. O MB parou no tempo? Evoluiu? Isso deixamos pra o leitor decidir...

A ÚLTIMA MENSAGEM DE BADEN-POWELL

Se vocês conhecem a história de Peter Pan, vão se lembrar que o Chefe dos Piratas estava sempre fazendo o seu último discurso, com medo de morrer sem ter tido tempo para dizer suas últimas palavras. O mesmo se passa comigo e, embora não esteja morrendo neste momento, isto irá acontecer qualquer dia destes; assim, desejo mandar a vocês umas palavras de despedida. Lembrem-se de que é a última coisa que ouvem de mim e, portanto, prestem bem atenção e meditem sobre isto. Tive uma vida muito feliz e espero que cada um de vocês também a tenha. Acredito que Deus nos pôs neste mundo alegre para sermos felizes e gozarmos a vida. A felicidade não vem da riqueza e nem do sucesso profissional; muito menos da auto-indulgência. Um passo para a felicidade é tornar-se sadio e forte na juventude, para poder ser útil e aproveitar a vida na maturidade. O estudo da natureza lhes mostrará como Deus fez o mundo cheio de coisas belas e maravilhosas para serem desfrutadas por nós. Contentem-se com o que possuem. Vejam as coisas pelo lado bom e nunca pelo lado mau. Mas a verdadeira maneira de alcançar a felicidade é proporcionando-a aos outros. Procurem sempre deixar o mundo um pouco melhor do que encontraram e, quando chegar a sua vez de morrer, poderão fazê-lo satisfeitos, com o sentimento de que não desperdiçaram o seu tempo e que procuraram fazer o melhor possível. Deste modo, estejam sempre alertas para viverem e morrerem felizes. Mantenham-se fiéis à Promessa Escoteira, mesmo quando tiverem deixado de ser meninos. E que Deus os ajude a proceder assim.

Do amigo,
Baden-Powell

<<Esta carta foi encontrada entre os papéis de Baden-Powell após sua morte.>>

 

ps: E. E. Reynolds pesquisou anos e anos a fio para publicar a biografia de BP, e, gentilmente, colocou-a à disposição integralmente na internet, para os pobres webmasters perdidos. Um webmaster americano meio preguiçoso resumiu meio de qualquer jeito o livro e colocou em sua página (não! Eu naum vou citar nomes!). Um outro indivíduo brasileiro, preguiçoso porém com mta boa vontade, traduziu o resumo do americano sobre o livro de E. E. Reynolds. Outro resumiu a tradução do resumo da biografia de E.E. Reynolds. Um quarto dispôs em tópicos, breves e objetivos, o resumo da tradução do resumo sobre o livro sobre a vida de BP. Pobre E. E. Reynolds. (BP teria achado engraçado)

ps2: Agora que você aprendeu, quer testar os conhecimentos sobre BP? Então responda o Nível 1 e o Nível 2 de nossos animados quizzes!

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Tah, vcs podem copiar à vontade, mas avisem!

 

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