\n'; document.write(barra); } } changePage();
##
Igrej@ Verde ##
Nesse espaço estamos discutindo os rumos
do MB. Modesto, não? Leia os textos de apoio e as opiniões dos
bands. Mande sua crítica para
vmbarbara@brfree.com.br e BP te pagará em cestas básicas.
Críticas: 11
:: textos ::
:: 1:: "Luzes e sombras no ano do voluntariado" - Emilio Gennari
:: 2 :: "Gaiolas e asas" - Rubem Alves
:: 3 :: "Odeio os indiferentes" - Antonio Gramsci
:: 4 :: O que é o Movimento Bandeirante - de um livro antigo
:: 5 :: textos ótimos da parte de Cerimoniais
Introdução
postada em 25/10/01 por Vanessa (DB Acauã)
O Movimento Bandeirante no início do século XXI (clichês!)
está tomando rumos sinistros. Acredita-se que muitos dos valores iniciais
estejam sendo suprimidos, distorcidos ou deixados de lado para dar lugar a um
novo conceito de Bandeirantismo. O que está acontecendo? O que, afinal,
é o Bandeirantismo hoje?
Para quem se perdeu no caminho e já não sabe mais o que é
o MB, tem dúvidas sobre o que ele pode vir a se tornar ou está
desconfiado com o caminho assistencialista que se abre, estes textos podem ser
de alguma ajuda. Se você acompanha um pouco do que vem acontecendo por
aqui e está preocupado, ou olha torto quando cantam aquela musiquinha
do Criança Esperança nas atividades da Região, perca um
pouco do seu tempo lendo as definições de Bandeirantismo dadas
por um livrinho tosco da década de 80 (que a gente transcreveu aqui)
e o texto abaixo, tirado de não-sei-onde, que preenchia o Nononono de
uma matéria incompleta. Agradecemos ao adorável André Deak
por nos fornecer larvinhas mexicanas e o artigo fofinho que nos inspirou (mais
abaixo, autoria de Emilio Gennari).
Atenção: as críticas NÃO constituem uma unidade de pensamento, são idéias plurais de cada um dos autores.
Postado em 04/04/02 por Vanessa Barbara
Manipulação / ideologia / cultura corporativa:
Uma instituição de poder ideológico (Igreja, escola, exército, MB), inconscientemente, usa da repressão para manter a situação que a sustenta, propagando uma ideologia conveniente por meio de pequenas ações aparentemente banais. Os agentes dessa repressão não o fazem por pura maldade (não acordam dizendo: "muhohoaha! Hj vamos iludir e oprimir mais pessoas!!"), mas apenas porque interiorizaram que aquela situação é a única ou a mais indicada, apenas porque REALMENTE acreditam que tudo está certo. Porque, claro, está tudo certo pra eles. Quando incitados a refletir sobre o assunto, fecham os olhos e reprimem a golpes de martelo os que contrariam a ordem. Ou a golpes nem tão físicos assim, mas por meio de palavras e ações tãão inocentes... a história do "uma vez bandeirante, sempre bandeirante", que era uma frase curiosa mas acabou se tornando algo abominável, como se o bandeirantismo fosse um fim em si. Como ser corinthiano ou comer frango todos os dias. O que é ser bandeirante, afinal???? Por favor, não respondam, as respostas da "alegria", "serviço", "disposição" já perderam totalmente o sentido.
Voltando. Não é que o MB esteja propagando as ações assistencialistas apenas por ocasião ou porque acredita que elas possam mudar alguma coisa, mas porque o MB já é isso o que propaga, todos já concordam e acham que sempre foi assim. E por que há esse incentivo à "caridade" e à passividade? Por que os bandeirantes concordam? Porque
1) o movimento é feito majoritariamente pela classe média-alta que deseja manter tudo o que possui, adotando qualquer tática (o menos sangrenta possível, aparentemente) para manter o status quo e não perder seu emprego confortável, seu Palio 98 e as baladas de fim de semana.
2) porque o item 1 foi interiorizado até por pessoas que nunca concordariam com isso, inclusive pelos oprimidos!, através da propaganda maciça da TV, do governo, e principalmente dos dirigentes bandeirantes que compõem o item 1.
Tem, tb, a história da "cultura corporativa", que é apenas a resistência que as pessoas têm à mudança, referente aos seus empregos, à vida pessoal, ao celular etc, e por isso defendem com unhas e dentes convicções que já perderam faz tempo o status de "convicções", sendo apenas um conjunto de idéias vagas que fazem o "ser bandeirante" igual a "ser advogado", "ser fashion", "viajar para os EUA", "trabalhar no escritório", ou "paquerar o garoto do Xerox".
O bandeirantismo perdeu TODO e QUALQUER sentido. A reflexão
sobre o movimento é baseada apenas em meia dúzia de textos de
auto-ajuda, ninguém nunca quis pensar seriamente sobre isso, o que é
absurdo pras pessoas que ali continuam, mecanicamente (vcs descem em qualquer
ponto do onibus e saem girando em torno do próprio eixo, tb?).
Postado em 02/04/02 por Tiago (DB nonono - Nono), que disse q não tem a ver com a proposta mas quer se expressar!
"Dificil é unir todas as verdades numa só"
Com base em minha ignorância, absorvo os acontecimentos e construo meus
pensamentos.
E passo o tempo procurando ver a realidade, procurando entender as razões,
tentando dar um sentido sólido as minhas ações.
E creio que só sou realmente sincero quando estou a pensar!
Rebato a tudo que seja externo, num primeiro olhar. Deixo as mudanças
me penatrarem lentamente, ao meu ritmo. E com isso ganho tempo para vê-la
de diversos lados.
E penso que não há como se abster da verdade, ela existe e também
atende por realidade.
Mas percebo que a minha é diferente da sua! ...?
E de uma certa forma é sim, mas isso porque estamos vendo de direções
alternadas. Uma doença que me atinja é um problema meu, o hospital
público que atende mal é problema de todos, mas se você
tem um bom plano de saúde, provavelmente não ligará para
o problema do hospital, mas o problema esta lá.
Uma outra situação: você terminou o ensino médio,
tem varias aptidões, talento e força de vontade, mas não
consegue vaga em nenhuma faculdade, isso é problema seu, mas a falta
de faculdades públicas, de escolas técnicas, da má qualidade
do ensino, isso é problema nosso, mas se eu tenho um emprego ou alguém
com dinheiro suficiente para pagar a minha faculdade, provavelmente não
ligarei para a falta de cuidado com a educação de outros.
O que vejo é só desencontro, uns vêem que a melhor solução
é o "individualismo coletivo" e outros crêm que só
unidos poderão realizar o que eles individualmente desejam. Os pensamentos
são contraditórios, mesmo dentro de uma só cabeça,
o que dirá um universo imperceptível de cabeças a pensar.
Declaro ao meu ver impossível dizer que seremos capazes de viver em harmonia,
vejo essa ideologia como utópica, o que desejaria para um melhor convívio
com o próximo, com o mundo, é somente respeito.
Não há palavras que demonstre o que é a vida. E não
é nas palavras que se encontra a verdade.
Todas as palavras, frases, são ditas com objetivo de expressar algo,
isso é óbvio. Portanto é muito fácil se comunicar
por meio desse tipo de linguagem, é muito fácil eu lhe dizer para
onde estou indo, o que estou fazendo, o que quero comer, enfim este tipo de
coisa. Mas a diculdade esta em expressar o que sentimos, ou melhor a verdade.
Aquilo que esta dentro da sua cabeça, tudo aquilo que se encaixa no seu
contexto.
Alguns reprimem, outros agridem, outros se calam. Alguém sofre.
Contudo, sou incapaz de cobrar as palavaras de alguém, apesar de querer
contar com elas.
Só confio no que posso sentir, e não sinto nada por meras palavras,
por que sei que elas representam apenas uma pequena parcela da realidade, e
por muitas vezes não são capazes de expressar a verdade, e passo
a dar o mesmo valor tanto às críticas quanto aos elogios.
Não acredito que podemos realizar o que sentimos, porque tudo é
tão espontâneo, tão rápido que não se pode
prever. Tudo muda, então nada é definitivo.
E tudo o que pode ser escrito, pode ser apagado. O que se pode dizer, pode ser
calado.
Mas não há como mandar num coração e levar na rédea
a emoção.
Para levar a outros sua opnião creio que se deve chamar a quem almeja
para o seu lado, fazê-lo ver a coisa do mesmo ângulo que o seu,
e não tentar fazê-lo acreditar que, de onde ele está, a
coisa é a mesma.
Somente devo ao mundo o respeito, e dele é só isso que exijo.
Não há como todos estarem do mesmo lado, então não
peço que me entendam, mas não tente exigir de mim me colocar no
seu lugar, muito menos mudar minha opnião.
Postado em 20/1/02 por Marcelo Venturi (DB Catarina - SC)
Alguém sabe a média do nível de educação
de nossos coordês bandeirantes? Às vezes eu me pergunto se o Nacional
entende realmente de Educação? E de sociedade? Sociologia? Ambiente,
de verdade? E administração?
O pior é que eu acho que até deve ter... mas não adianta
nada, se nas regiões tb não tem ninguém, portanto, nas
ANs votam as cacas, e fazem o negócio andar pra baixo, pra longe da realidade...
Fazem descobrir que no fundo do poço, ainda existe um porão, e
com adega... É deprimente as vezes!
Por um MB mais adaptado à realidade do Brasil!
Postado em 20/1/02 por Teobaldo (DB Catauã, região Acapulco)
"Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou" (Albert Einstein)
Aí está a prova que devemos tomar o poder e que o Nacional (e uma ou outra região) tem que nos ouvir, se quiser ser bandeirante de verdade e parar de olhar apenas pro seu umbigo... perceber, que existe graças aos jovens e para eles, e não apenas por si!
Deviam criar um SAC (serviço de atendimento direto ao Consumidor, ou
ao Cidadão... mas no nosso caso ao bandeirante... um SAB, com 0800 e
tudo, e com um e-mail de sugestões e reclamações para nós
bandeirantes... com certeza eles ficariam sabendo muito mais da realidade do
MB desta forma!!!
Eles precisam aprender que ouvir é tão importante quanto falar.
E que muitas vezes se dependermos dos intermediários, as informações
importantes não chegam até lá!)
Postado em 7/12/01 por Vanessa (DB Acauã - SP)
"Brecht disse, sobre arte, algo que cabe a praticamente tudo (búzios! pôquer! segredos da culinária!), incluindo o bandeirantismo: 'Quando algo é apolítico, não quer dizer outra coisa senão estar aliado ao grupo dominante'.
É totalmente verdade, quando se vê a situação do movimento por aí. Já que a maioria das crianças e jovens reflete a ideologia atual (se tornaram conformistas, apáticos, superficiais, cada vez mais engaiolados a dogmas da sociedade e renunciando a liberdade deles mesmos), o MB achou que devia ser uma ´instituição moderna´ e resolveu adaptar todo o método educativo a essa ideologia... fez que ´sim´ e disse q eh preciso seguir os tempos, simplificar as coisas e fazer um movimento medíocre que não só fosse conivente com tudo isso, mas apoiasse as atrocidades, e ainda contribuísse pra que as coisas continuassem como estão... apóia com entusiasmo as iniciativas de caridade e do Ano do Voluntariado, perpetuando assim a desigualdade mórbida, e ainda ajudando para que ela se alastre! Claro, a instituição não quer saber (nem remotamente!) de pensar sobre novas maneiras de ver o mundo, não quer procurar saídas, não quer entender esse ciclo vicioso que o sistema fomenta, não quer nem discutir sobre isso (alguém se manifestou na Igreja Verde?), não quer participar do Fórum Social - mas pra Feira da Cidadania eles vão! O que significam essas atitudes, senão virar a cara pra o fato de que deve haver mudança, e dizer 'sim! Nós somos coniventes com o sistema capitalista que explora o ser humano, mas estamos fazendo a nossa parte dentro dele, tipo dando uma migalha aqui e ali, pra tirar nosso peso da consciência.. claro, sabemos que nunca vai haver igualdade dentro dele, mas é uma falha original do sistema, a gente não pode fazer nada né!´ O Movimento está criando cidadãos críticos pra quê, então? Pra serem um pouco mais ´humanos´ e sensíveis ante as injustiças, mas nunca pra pensar sobre elas! Há algo de muito podre na filosofia do MB... ou a instituição quer criar exércitos pra apoiar o sistema capitalista em que eles estão confortavelmente acomodados, ou ela quer apenas prestígio próprio ou... não acredito que sejam inocentes a ponto de achar que podem estar ajudando a transformar tudo por meio dessas iniciativas de auto-promoção caridosa... Enquanto não escutar alguém dizendo que quer ajudar a pensar em maneiras de transformar tudo, da base, e prover uma educação que dê liberdade crítica aos bands, não vou acreditar no Movimento...
Continua sendo a tal da rosquinha mofada..."
Postado em 7/12/01 por Marcelo Venturi
(DB Catarina - SC)
Leia aqui
um texto batuta de Rubem Alves!
"Às vezes me ofendo quando o meu coordê
diz em ferradura: ´- O bandeirante tem um monte de normas, e regras, e
....´
Até que ponto necessitamos realmente deste monte de regras? Por que nosso
sistema de educação ainda preserva meios militaristas ou da educação
Formal para impor respeito? Fico tão decepcionado... parece que as crianças
são realmente tigres... Agora passo a entender... Às vezes me
consideram irresponsável ou anarquista (como se isto fosse crítica,
considero um elogio, pois anarquista ipsis literis é sinônimo
de auto-consciência tão grande que não necessita de mandato...
mas deixa pra lá que é outra discussão) apenas por conseguir
discutir com meus bandeirantes e deixar que eles tomem a decisão, que
eles façam seu caminho e trilhem o que eles consideram importante...
Obrigado, se isto é ser anarquista realmente me orgulho..."
Postado em 3/12/01 por Stephanie B2
(DB Acauã - SP)
"Toda vez que eu olho pro lenço e pro broche, que simbolizam a promessa
(apesar dakela regra nova) fico pensando no sentido da promessa, ou se já
teve um sentido de verdade.
Milhares de pessoas cantando "depende de nós", num mundo onde
acham que pandas não mordem e idolatram o Mickey?!?
Fala sério, já passou do limite faz tempo, porque quando chegarem
em casa e colarem o distintivo"Eu fui" vai tudo voltar ao normal,
sendo novamente pessoas capitalistas que, ao invés de tentar mudar o
sistema, põem um band-aid de bichinho por cima e eskecem que por baixo
vai continuar enrrugado e malcheiroso!
Pra mim, uma ideologia tão legal foi pro saco com essa gente que se contenta
com o Hino Nacional cantado pelo Padre Marcelo e um coral de velhinhos de branco!
A rosquinha do bandeirantismo já mofou há muito tempo..."
Postado em 25/11/01 por Crizanto Stefanes
(DB Catarina - SC)
"Estamos cansados de ver a todo dia o paternalismo desenfreado
das instituições brasileiras, mas o que fazer pra isso mudar????
Que tal pensarmos na raiz dos problemas socias em nossa volta?? Será
que nós mesmos não somos os responsáveis por isso??? A
partir do momento em que escolhemos nossos representantes diretos, estamos avaliando
toda e qualquer ação social que esses nossos representantes aprovam.
Posto isso, podemos dizer que, se estamos aptos desde os 16 anos a fazer ouvir
nossas escolhas, então pq não aproveitar esse grande instrumento
de mudança para darmos um basta nessas incoerências absurdas que
nós mesmos provocamos e somos responsáveis...
Você fez, você assume !!! Está na hora de assumirmos nossos
atos, então assim devemos fazer, estamos todos no mesmo barco, vamos
pegar junto o leme e darmos a direção correta ao bem estar comum,
se tivermos esta consciência de ser e estar no mundo, poderemos deixá-lo
um pouco melhor do que encontramos, nosso lema não é este??? Pois
então, mexa-se comece por vc, assuma suas escolhas e, se estas não
são as melhores, mude, mude quantas vezes achar necessário, mas
mude...
Somente assim poderemos estar indo no caminho certo e melhorarmos o mundo, sim,
isto é possível, mas somente possível se vc estiver junto,
consciente que vc faz parte diretamente dele e pelo que acontece com ele. Sim,
você é responsavel por fazer um mundo melhor!!! Mexa-se!!!! Faça
qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, mas faça alguma coisa pra mudar
essa eca de sistema ultra mega paternalista em que estamos envolvidos."
Fragmentos postados em 11/11/01 por Stephanie B2 (DB Acauã)
"Os chamados rebeldes são reflexos da sociedade caótica que forma revoltados que dormem no sistema, se os traidores são quem mais apóia o poder. A praga do século é a sociedade que nos esconde de nós mesmos, que o medo é plantado desde sempre e a vida é sempre de mentira. E, ao saber disso, sei que quem me fez é quem me condena... Capitalismo mata!"
"Eu adoro o Acauã! É tudo tão tosco! Meu DB é meio excluído, ninguém liga pra gente, apesar disso, eu suspeito que o Acauã é influente nos lugares! A Região é legalzinha! Bom, o povo é meio fresco, meio manipulador, mas dá pra agüentar!"
"A Semana Bandeirante 2001 no Parque da Água Branca foi comemorada no dia 18 de agosto. Tivemos jogos, atividades e comida! E só pra dar um toquezinho extra, tudo parte de uma grande B.A. pelo ano do voluntariado! Será que no ano dos carunchos a FBB abre uma grande fazenda de Arroz? Hum! Faremos uma petição quanto a isso!"
Postado em 30/10/01
por Vanessa (DB Acauã - SP)
Só uma observação rápida... as críticas foram
feitas não ao MB ou às propostas - a metodologia band é
animal, vc sabe -, mas sim ao rumo que a "instituição"
aqui tah tentando colocar nos distritos... aquele clima de paz, harmonia, esperança,
faça-parte-faça-sua-parte, tudo mto bonito e limpinho... o mundo
sendo salvo, os bands cantando, as baleias e as chinchilas sorrindo.. esse conceito
de Cidadania passiva, de atravessar na faixa d pedestre, saber os telefones
úteis e ficar fora do partidarismo etc etc...
Claro que não são todos da Região, não sei nem se é a maioria, mas a impressão que eu tenho eh de que, com essa imagem de "prêmio eficiente do ano 2000", todo esse marketing de ONG e ano do voluntariado, a região SP (nao sei sobre o Nacional..) tah criando um movimento nojento, tah incentivando a passividade... sem ser radical mas jah sendo, tah alienando os bands e criando um monte de robozinho a serviço dessa ideologia, mesmo sem querer!...
2001: luzes
e sombras do ano do voluntariado
Emilio Gennari (Membro do Núcleo
de Educação Popular 13 de Maio)
Você já deve ter passado pela experiência de ficar sem luz
elétrica bem naquelas horas em que a escuridão dificulta até
mesmo o trabalho de achar uma vela. Encontrada uma, não há quem
não se apresse a riscar o fósforo na esperança de que a
sua pálida luz consiga ajudar a enxergar e a tropeçar o menos
possível. Apesar do alívio imediato de estar saindo da escuridão,
você logo percebe que aquela chama cria sombras que chegam a ser bem maiores
dos objetos que as produzem e que voltam a colocar na escuridão o que
parecia começar a ficar claro.
A realidade do dia-a-dia é bem parecida com este vaivém de luzes
e sombras que ora iluminam, ora ocultam as relações entre as pessoas.
O gozado é que há luzes que servem justamente para criar sombras
capazes de ocultar o verdadeiro sentido dos acontecimentos e há sombras
que, ao protegerem os olhos da luz, nos permitem criar condições
de enxergar melhor.
O fato é que, alguns meses atrás, o mundo acordou diante de uma
luz acesa pela ONU que declarava 2001 o Ano do Voluntariado. Em
pouquíssimo tempo, várias organizações não
governamentais foram iluminadas, projetos sociais criados por empresas ficaram
em evidência, o trabalho assistencial de muita gente ganhou destaque e,
de repente, esta luz simples e singela pareceu desvelar o mundo mergulhado no
individualismo e na competição.
À primeira vista, tudo parece ser muito justo e louvável, não
fosse pela enorme sombra que esta luz vai criando e graças à qual
várias partes do mundo voltaram a ficar escuras. Desconfiado de que alguma
coisa está errada, resolvi ficar na sombra por um tempo. Não,
não foi para ficar escondido, e sim para encontrar elementos que ajudassem
a acender outras luzes com as quais fosse possível começar a iluminar
estas áreas de sombra que pretendem continuar escondendo realidades incômodas.
Parece incrível, mas, às vezes, é necessário ficar
na sombra para dar vida a novas luzes.
Confesso que fiquei surpreso quando a vela do voluntariado iluminou uma realidade
que não imaginava ter estas dimensões: estima-se que, no Brasil,
cerca de 31 milhões de pessoas estão direta ou indiretamente envolvidas
com programas sociais cuja realização demanda algum tipo de trabalho
voluntário (1). Da coleta de alimentos e roupas usadas a ações
mais consistentes no campo da saúde, educação, alimentação,
combate à violência, etc., a solidariedade parece ganhar um número
crescente de adeptos numa época em que o ser humano parecia estar se
transformando numa ilha de consumo, insensível às
necessidades do outro e aos apelos dos mais pobres. É verdade que nem
todo este exército de 31 milhões de seres humanos está
sempre disposto a dedicar ao próximo algumas horas do seu tempo e que
é movido pelas mais variadas motivações. Mas é importante
registrar que a solidariedade ainda tem um lugar
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
|
"Os
rostos destes milhões de soldados, que continuarão anônimos
em sua dedicação, projetam uma sombra assustadora que
cobre realidades incômodas."
|
Os rostos destes milhões de soldados, que continuarão
anônimos em sua dedicação, projetam uma sombra assustadora
que cobre realidades incômodas. Quem já olhou para o mundo através
da janela da sua casa, sabe que, há tempo, os gestos de solidariedade
integram a vida quotidiana das periferias das grandes cidades, onde a fome e
a miséria sentam à mesa de milhões de famílias.
Isso significa que para os trabalhadores e as trabalhadoras do nosso país
socorrer o outro de forma gratuita e silenciosa, mais que uma exceção,
tende a ser uma regra. O problema é que esta realidade, impossível
de ser estimada em valores monetários, sempre foi vista com preocupação
quando constituía uma das bases para a construção de movimentos
de massa que questionavam o sistema e a exploração imposta à
grande maioria da população.
|
"Deixada
na sombra por anos a fio, a solidariedade é valorizada agora
pelas mesmas elites que sempre lutaram contra a possibilidade dela se
tornar um elemento de organização popular capaz de abrir
os caminhos de um questionamento profundo das bases que sustentam o
mundo em que vivemos"
|
Deixada na sombra por anos a fio, a solidariedade é valorizada agora justamente pelas mesmas elites que sempre lutaram contra a possibilidade dela se tornar um elemento de organização popular capaz de abrir os caminhos de um questionamento mais profundo das bases que sustentam o mundo em que vivemos. Em nome da paz, da prevenção dos conflitos, da necessidade de criar um novo capitalismo com rosto humano e de reduzir o passivo social gerado pela marginalização de milhões de pessoas, um número considerável de Organizações Não Governamentais, Igrejas, institutos e fundações empresariais se compromete cada vez mais em desenvolver programas de ação social e de ajuda comunitária que, ao longo de 2001 deve superar o montante de dois bilhões de Reais.
A sombra do dinheiro e dos nomes famosos envolvidos neste compromisso
social da sociedade civil faz cair em segundo plano até mesmo o
exército de voluntários do qual falava antes. Diante do cinza
que começa a escurecer os seus rostos de homens e mulheres do povo, uma
pergunta teima em levar mais gente a procurar outros fósforos e outras
velas para iluminar a realidade oculta atrás desta nova e imponente sombra:
por que a elite está tão interessada em promover o trabalho voluntário?
|
"Se
eles aceitassem morrer calados no esquecimento das periferias, no silêncio
barulhento das sarjetas e dos viadutos, ou se o seu grito ficasse entre
as frágeis paredes dos cortiços e dos barracos das favelas,
não seria necessário se preocupar com eles."
|
Aparentemente, a resposta é simples: porque a desigualdade social ameaça a sua segurança. Dito de outra forma, se os pobres não roubassem seus carrões, não assaltassem ou seqüestrassem seus membros, não matassem seus filhos nesta guerra não declarada que se desenvolve em cada esquina dos grandes centros urbanos, a miséria e a exclusão não seriam um problema e sim uma solução: ajudariam a reduzir o número de pobres que, longe de ser uma espécie em extinção, aumenta a cada dia. Se eles aceitassem morrer calados no esquecimento das periferias, no silêncio barulhento das sarjetas e dos viadutos, ou se o seu grito ficasse entre as frágeis paredes dos cortiços e dos barracos das favelas, não seria necessário se preocupar com eles. A fome e a doença se encarregariam de ajudar na seleção natural da espécie da qual sairiam só os mais fortes e, possivelmente, os que mais se adaptam ao ritmo frenético da exploração. Enfim, não fosse pela ameaça que a desigualdade representa para a vida dos membros das elites, não haveria por que pôr a mão no bolso de forma planejada e sistemática. A consciência dos ricos poderia ser acalmada com as moedinhas que sobram e que produzem no pobre aquele sorriso que os faz sentir em harmonia com a humanidade.
O problema desta resposta, que é verdadeira, é que ela continua
deixando na mais completa escuridão uma área imensa na qual, com
muito custo, se consegue ver entre as sombras o cifrão símbolo
do dinheiro. Pelo seu tamanho e imponência já dá pra dizer
que toda esta ênfase no compromisso social e nos projetos de trabalho
voluntário das empresas esconde que eles estão se tornando um
grande negócio. Como eu sei que enxergar no escuro não
é fácil, vou costurar aqui algumas reflexões que podem
iluminar seus olhos e ajudar a desvendar a realidade que se esconde neste mundo
de luzes e sombras.
Quando comecei a refletir sobre este tema, acreditava que o envolvimento das
empresas nas ações de solidariedade dirigidas às comunidades
carentes era essencialmente vinculado ao fato de que o trabalho voluntário
de seus funcionários iria melhorar a sua imagem no mercado. Uma espécie
de marketing social graças ao qual os patrões ganhariam
a simpatia coletiva à marca da empresa, o apoio cidadão
contra possíveis ações reivindicatórias de seus
empregados, a legitimação da idéia que a niciativa privada
tem um compromisso social sério e eficiente que a coloca acima ao próprio
desempenho do Estado e que, justamente por isso, a lógica do privado
deveria substituir a ineficiência dos serviços públicos
que atendem a população. Estes vários coelhos seriam mortos
com uma única cajadada que pouco custaria às empresas (já
que gastos com este tipo de projetos e doações podem ser descontados
do imposto de renda até 2% do lucro real), mas cujo retorno seria, sem
dúvida compensador.
A impressão de que os coelhos mortos eram maiores em número e
tamanho veio ao analisar alguns dados divulgados pela COMAPPS, empresa que administra
Shopping Centers em várias regiões do país. Depois de constatar
o desgaste das campanhas publicitárias que se baseiam no sorteio de carros
ou em outros atrativos, a COMAPPS conseguiu dar um novo fôlego às
vendas convocando a comunidade a doar presentes de Natal para crianças
carentes. Resultado: as vendas cresceram até 36% em relação
ao mesmo período do ano anterior no Shopping Metrô Tatuapé,
em São Paulo. Ao comentar a façanha, o representante da
empresa, Luiz Alberto Marinho, diz: Por isso, é preciso agregar
à marca algo mais. Não se deve desprezar a dimensão moral
que faz o consumidor se identificar com o produto (2). Eu não sei
se você consegue contar todos os coelhos mortos, mas além de poupar
o dinheiro dos prêmios (carros, apartamentos etc.), de fazer caridade
com o que é dos outros e alimentar o sentimento de dívida de gratidão
dos pobres em relação aos ricos, os capitalistas aumentaram significativamente
os seus lucros graças à dimensão moral do consumidor
que ao levar sua sacola de donativos ao Shopping levava para casa as sacolas
das compras que iam enchendo os bolsos dos lojistas e dos demais empresários.
Sim, eu sei que os pobres também ficaram contentes, sorriram, tiraram
fotos com seus benfeitores etc., mas espero não ter que explicar a você
os efeitos devastadores deste tipo de assistencialismo que faz com que os miseráveis
se conformem com sua situação, não lutem, abram mão
de sua dignidade para que suas próprias mãos estejam livres e
bem estendidas à espera da esmola, seja qual for a forma sob a qual ela
pode vir a ser depositada nelas.
Se você acha que este tipo de atitude é algo típico das
festas de fim de ano, pois está redondamente enganado. Ao olhar as vitrines
das lojas de relógios entre fevereiro e abril deste ano, você deve
ter encontrado com certa facilidade um selo com os dizeres: Este tic-tac
vale um sorriso, parceria da fábrica de relógios Swatch
com a Fundação ABRINQ pelos direitos da criança. A campanha
vinculava a compra do relógio à doação de 10% do
lucro das 16 lojas instaladas pela Swatch no Brasil (3). Simples, não
é? Você compra aquele relógio, sabe das horas,
fica um charme e, de quebra, ajuda as crianças e os adolescentes. Nessa
todos saem ganhando: a fábrica de relógios vende os estoques,
a ABRINQ arrecada um Real por peça vendida e as crianças sorriem
para toda a freguesia que, além do mais, realizou uma boa ação.
O problema aqui é que existem pentelhos que não
se conformam com as aparências e começam a fazer perguntas. Esse
tal de lucro não é justamente aquela fatia do valor
do relógio que foi produzida pelos trabalhadores e trabalhadoras da Swatch,
mas não foi paga na forma de salário? Quantas vagas foram cortadas
nas unidades da empresa nos últimos 10 anos? Quantos pais e mães
de família foram jogados para o olho da rua para que a Swatch pudesse
reduzir custos? Quantas crianças e adolescentes viram piorar
suas condições de vida a ponto de chegar a apagar suas esperanças
de futuro justamente porque os pais foram parar entre os sem renda?
Quantos relógios a mais a empresa está produzindo com um quadro
de pessoal enxuto e assustado pelo fato de não saber quem será
o próximo na lista de cortes? Para quanto foi o lucro anual da empresa?
A Swatch assinou o convênio com a ABRINQ após ter visto o desespero
dos filhos e das filhas dos ex-funcionários que, pontualmente, se apresentam
na portaria da empresa na esperança de encontrar uma vaga? Ou foi para
esvaziar um estoque encalhado diante da chegada dos novos modelos? Se a Swatch
está tão preocupada com o futuro das crianças e dos adolescentes,
porque descuidou justamente das condições que garantiriam o futuro
dos filhos e filhas de seus funcionários?
Sossegue, a minha não é uma briga pessoal com os donos desta fábrica
de relógios, mesmo porque eu nunca fui funcionário dela. Eu colocaria
as mesmas perguntas aos donos das empresas que integram a Fundação
ABRINQ e a cada uma das demais que se envolvem em projetos de assistências
às pessoas carentes. Razões para isso não me faltam. Quer
ver? O Banco do Brasil, por exemplo, já anunciou que até o final
de 2001 vai empregar 4 mil adolescentes através do Programa Adolescente
Trabalhador destinado a jovens com baixa renda familiar e cuja idade esteja
entre os 16 e pouco menos de 18 anos. Ao trabalharem como bancários nas
agências de várias cidades do país os felizardos ganharão
a fortuna de um salário mínimo mensal em troca de uma jornada
de 5 horas diárias. Parece bom, não é? O pessoal vai trabalhar
meio período e terá o resto do tempo para continuar os estudos.
O problema aqui é que estes adolescentes irão ganhar menos da
metade do menor salário de um bancário que hoje, 24 de maio de
2001, é de 582 Reais e 81 centavos. Sim eu sei que os novos contratados,
possivelmente, estarão ingressando no seu primeiro emprego e irão
trabalhar menos horas, mas o saldo destas diferenças vai ficar por conta
dos demais benefícios que um bancário normal iria
receber além do salário mencionado.
Deixo a você a tarefa de encontrar uma definição apropriada
para este tipo de ajuda, mas tenho a leve impressão de que a Swatch,
o Banco do Brasil e os demais filantropos que agem em nome da responsabilidade
social da empresa vão elevar seus lucros e, consciente ou inconscientemente,
continuarão transformando sua intervenção assistencial
num biombo em cuja sombra escondem os mecanismos de exploração
e exclusão dos quais não abrem mão. Sim, eu sei que estou
sendo radical. Mas ser radical não é nenhum defeito, e sim a expressão
de um desejo profundo de ir à raiz dos problemas, de apontar as causas
da doença para que elas possam ser destruídas. Entre limitar-se
a amenizar os sintomas ou extirpar o mal que os provoca, eu ainda prefiro esta
segunda opção.
Se você está achando que a atenção aos problemas
sociais é apenas mais uma estratégia para aumentar os lucros,
pois está redondamente enganado. Nas são poucas as indústrias
que, após os primeiros tímidos passos nos projetos de assistência
às comunidades carentes da cidade onde estão instaladas, perceberam
algo fundamental para o próprio processo de acumulação.
Ao envolver os funcionários nos projetos por elas viabilizados, as empresas
começaram a perceber que este engajamento não aumentava só
o espírito de solidariedade dos trabalhadores e das trabalhadoras, mas
elevava também o seu orgulho, a sua auto-estima, o seu sentimento de
equipe e a própria motivação com a qual desempenhavam as
funções exigidas pelo processo de trabalho. Traduzido em miúdos,
estes companheiros e companheiras trabalham com mais vontade, produzem mais,
se queixam menos e tendem a vestir a camisa da empresa 24 horas por dia. Não
precisa ser um especialista em Recursos Humanos para saber que a soma destas
atitudes abre caminhos para viabilizar uma das regras básicas do sistema
capitalista: produzir mais, em menos tempo e... com menos gente.
Não sei te dizer se, ao serem demitidos, alguns desses
voluntários sofrerão menos, se sentirão perdidos, injustiçados
ou se agradecerão o pé que chuta o seu traseiro pelo simples fato
de não ter feito isso antes, mas de uma coisa você pode ter certeza:
o capital já colocou em suas consciências alguns biombos que impedem
a eles de relacionar os sintomas com as causas da desigualdade, da miséria
e da violência que atingem a nossa sociedade. Quer saber o porquê?
É só você dirigir novamente o seu olhar para a realidade
que as empresas de ponta vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos.
Além de doarem o seu tempo livre para o sucesso dos programas sociais
da empresa, os funcionários-voluntários chegam até mesmo
a bancar parte destes programas. Um bom exemplo é o projeto Nutrir da
Nestlé que, em média, conta com um milhão de Reais por
ano. Metade desse montante vem das doações de 6.500 pessoas,
que representam 53% do total de trabalhadores. Os voluntários somam 710,
mas a meta é chegar a 1.230 ainda este
ano(5).
Não me diga que você está pensando no que eu estou pensando.
Sim, é isso mesmo. Para completar a obra, só falta que os produtos
do projeto, por acaso, sejam da marca Nestlé. Aí seriam
os próprios trabalhadores a tirarem dinheiro do seu bolso para ajudar
a empresa na qual trabalham a realizar uma parte dos seus lucros através
da venda voluntária de seus produtos num projeto por ela
elaborado e dirigido. O que você acha, será que com este grau de
envolvimento vai ser fácil de algum funcionário ou funcionária
começar a acordar diante do choque provocado pela sua eventual demissão?
Tomara que sim, mas aí, talvez, já será tarde demais.
Você entende que se as sombras do trabalho voluntário organizado
pelas elites se limitassem a cobrir a realidade que acabamos de descrever, nós
todos já teríamos elementos suficientes para ficarmos indignados.
Mas a realidade que, consciente ou inconscientemente, está sendo criada
por este exército de pessoas, ONGs, igrejas, entidades filantrópicas,
institutos e demais etceteras é bem mais complexa e intrigante.
Ao assumir a idéia do voluntariado como possível caminho para
a solução dos problemas sociais, as pessoas não percebem
que estão se tornando uma verdadeira tropa de choque ideológica
a serviço do capital. Não só ninguém mais
se atreve a questionar os alicerces que sustentam a exploração,
como diante das queixas de que as coisas na sociedade vão de mal a pior
a resposta imediata é: faça a sua parte, doe
a melhor parte de você e verá que tudo começa a melhorar.
Se você está assustado com os famintos, por que não dá
a eles um pouco da sua comida? Entristece-lhe o fato de que haja pessoas morrendo
de frio? É simples, doe a elas o agasalho que você já não
usa ou aquele velho cobertor que ficou encostado. Se as paredes do posto de
saúde foram pixadas, por que você não se junta aos vizinhos
e com um fim de semana de trabalho voluntário a turma não dá
conta do recado? É pouco? Claro que sim, mas, como diz a elite, de grão
em grão a galinha enche o papo.
|
"Não
só ninguém mais se atreve a questionar os alicerces que
sustentam a exploração, como diante das queixas de que
as coisas na sociedade vão de mal a pior a resposta imediata
é: 'faça a sua parte', 'doe a melhor parte de você'
e verá que tudo começa a melhorar."
|
O maior problema desta forma de trabalhar a consciência
da sociedade não está só no fato de que foram as próprias
elites que criaram e continuam alimentando o abismo entre pobres e ricos e
nem que são os trabalhadores e as trabalhadoras a pagar do seu bolso
por um estrago que não fizeram. O que revolta é que o único
papo que se enche sem parar é justamente o das classes dominantes.
Você acha que estou exagerando? Sim? Bom, então, tenha um pouco
mais de paciência e acompanhe o meu raciocínio.
Tanto eu como você, contribuímos com uma pesada carga de impostos,
mas não recebemos do Estado serviços públicos de boa
qualidade. E isso não é por acaso. Você deve saber que,
no ano 2000, o governo federal gastou quase 78 bilhões de Reais só
para pagar os juros da dívida interna que anda por volta dos 560 bilhões
de Reais (6). Vista dessa forma, parece que a questão da dívida
se resolve entre os bancos e o governo sem que haja prejuízos para
a sociedade. Na verdade, como se trata de uma relação bem parecida
à de um agiota com o seu devedor, o governo deve ter cada vez mais
recursos para pagar o que deve e, ainda assim, não consegue quitar
o seu débito. Para dar conta dos juros ele não tem muitos caminhos
além de aumentar a arrecadação dos impostos e de reduzir
os gastos com a saúde, educação, transporte, moradia,
etc. O que você talvez não sabe é que são as grandes
aplicações financeiras dos capitalistas a fornecer aos bancos
os recursos a serem emprestados ao governo e a receber, em troca, boa parte
das polpudas quantias que são pagas sob a forma de juros.
Acontece que, do início do Plano Real até os
nossos dias, a dívida saltou de cerca de 70 bilhões de Reais
para o valor que apontei acima e, ao que tudo indica, tende a aumentar cada
vez mais com o passar do tempo. Sendo assim, o Estado vai precisar de cada
vez mais dinheiro só para pagar os juros e terá cada vez menos
recursos para atender a população. Como? Você pergunta
o que é que isso tem a ver com o trabalho voluntário? Simples.
Na medida em que trabalhadores e trabalhadoras vão se substituindo
ao Estado para dar conta dos serviços que ele deveria prestar, não
estão só pagando mais um imposto (na forma de horas trabalhadas,
sacolas de alimento, contribuições para os pobres, etc.), como
vão fazendo com que o próprio Estado deixe de gastar nestas
atividades e tenha assim mais dinheiro disponível para retribuir o
que foi emprestado pelos bancos. Estes, por sua vez, repassarão verdadeiras
fortunas nas contas das elites cujos recursos continuarão alimentando
esta farra do boi conhecida pelo nome de Dívida Interna.
Estou deixando você de boca aberta? Não se preocupe, isso sempre
acontece quando descobrimos que, na escuridão destas longas e tenebrosas
sombras, estão nos fazendo de bobos... mais uma vez. As pequenas luzes
que andei acendendo começam a revelar a teia de relações
e interesses que se escondiam atrás da sombra projetada pela vela que
ilumina as fundações, as associações filantrópicas,
os institutos empresariais e, de quebra, os 31 milhões de voluntários
e voluntárias que estão em todo o país.
A estes homens e mulheres de boa vontade vou dirigir um convite cuja realização
não ultrapassa a fabulosa quantia de 10 centavos. Estou pedindo para
que usem alguns minutos do seu tempo de trabalho voluntário para pegar
papel, envelope e selo de 1 centavo para carta social. Se este texto deixou
vocês com a pulga atrás da orelha, se as quotidianas mutretas
da elite já andaram criando um gosto amargo na boca, se o peso da exploração
se faz a cada dia mais ameaçador, se a violência com a qual são
reprimidos os protestos populares fez vocês acharem que a democracia,
a liberdade e a justiça são ainda um sonho distante, então
peguem uma caneta, escrevam os seus desabafos e mandem-nos ao presidente da
república, ao governador do Estado ou até mesmo para o dono
da firma onde vocês trabalham. Para garantir que cada um e cada uma
de vocês não seja o próximo a ser demitido ou reprimido
assinem usando simplesmente o nome de João, Maria ou José, um
dos muitos nomes sob o qual o povo simples continua sendo sugado e privado
do que é necessário para a sua sobrevivência.
Eu sei que é pouco, mas, ao redor dos 10 centavos, a sua dignidade
vai se fortalecer e, com ela, vai aparecer a possibilidade de unir suas rebeldia
a outras e outras mais. Talvez, a partir de agora, este novo trabalho voluntário
vai começar a gerar uma solidariedade capaz de ir construindo as condições
que, no dia-a-dia da história, podem sacudir as bases do poder e derrotar
os mecanismos que aprofundam a situação de exploração
na qual vivemos. Do contrário, preparem a mão direita, pois
os próximos a pedirem esmolas poderão ser vocês.
__________________________________________
(1) Beatriz Vieira, Programas de Ação Social recebem R$
1,8 bi no Brasil em Gazeta Mercantil, 22/11/ 2000.
(2) Daniel Antiquera e Regina Scharf, Empresas atentas ao marketing
social, em Gazeta Mercantil 15/05/ 2001.
(3) Paulo Novas, Swatch lança campanha em parceria com a Abrinq,
em Gazeta Mercantil 13/02/ 2001.
(4) Janaina Leite, BB queer empregar este ano 4 mil adolescentes,
em Gazeta Mercantil 23/05/ 2001.
(5) Daniel A., Luciana F. e Ângela C. Funcionários participam
com trabalho e dinheiro, em Gazeta Mercantil 23/03/ 2001.
(6) Dados Publicados pela Gazeta Mercantil em 26/01/ 2001.
contato: emiliogennari@osite.com.br
Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche freqüentemente eram tambem atacados por eles.
Digo "atacados" porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a forca de um raio. Aforismos sao visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: "Há escolas que sao gaiolas. Há escolas que sao asas".
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são passaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos passaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os passaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações...
Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras àmostra - e as domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres. Sentir alegria ao sair de casa para ir a escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos?
O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é \n'; document.write(barra); } } changePage();
Nos tempos de minha infância, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraido pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro.
E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos.
Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensangüentado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.
Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas?
Vão me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor.
Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?
O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem aos conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Voce sabe o que é"digrafo"? E os usos da partícula "se"? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante"? Qual a utilidade da palavra "mesóclise"?
Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: "Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira".
O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era "ferramenta" e "brinquedo" do corpo.
Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender "ferramentas", aprender "brinquedos". "Ferramentas" são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. "Brinquedos" são todas aquelas coisas que, nao tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.
Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo. Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer...
Assim todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: "Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?" Se não for, é melhor deixar de lado.
As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas
e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada.
Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há
professores que amam o vôo dos seus alunos. Há esperança...
*educador, psicanalista, escritor e professor emérito da Unicamp. Artigo publicado na FSP, 4/12
"Odeio
os indiferentes"
Antonio Gramsci
Odeio os indiferentes. Como Frederico Hebbel, acredito que "viver é tomar partido". Não podem existir apenas homens, os estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. Por isso, odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte na qual freqüentemente se afogam os entusiasmos mais esplendorosos.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade, é aquilo com o que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mais bem construídos. É a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se deve tanto à iniciativa dos poucos que atuam, quanto a indiferença de muitos. O que acontece não acontece tanto porque alguns o queiram, mas porque a massa de homens abdica de sua vontade, deixa de fazer, deixa enrolarem os nós que, depois, só a espada poderá cortar; deixa promulgar leis que, depois, só a revolta fará anular; deixa subir ao poder homens que, depois, só um sublevação poderá derrubar.
Os fatos amadureceram na sombra porque mãos, sem qualquer
controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não
sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época
são manipulados de acordo com visões restritas, os objetivos
imediatos, as ambições e paixões pessoais de pequenos
grupos ativos, e a massa dos homens ignora, porque não se preocupa.
Por isso, odeio os indiferentes.
Nosso fórum de debates (Igrej@ Verde) é unilateral e xiita enquanto ninguém se manifestar em contrário. Mande sua opinião pra gente e nós publicaremos em letra tamanho 1. *)
Home // O que é // Livro MB // Histórico // Símbolos // Links // História Acauã // Sede // Colegiado // Ramos // Ciranda // B1 // B2 // Guia // G2 // Comunitárias // Acampamentos // JOTA // Outros // Fotos // Pasta de Jogos //Novidades // Igreja Verde // Guestbook // Contato // Mural de Recados