2001 - Luzes e sombras do ano do voluntariado

## Igrej@ Verde ##
Nesse espaço estamos discutindo os rumos do MB. Modesto, não? Leia os textos de apoio e as opiniões dos bands. Mande sua crítica para vmbarbara@brfree.com.br e BP te pagará em cestas básicas. Críticas: 11

:: textos ::
:: 1:: "Luzes e sombras no ano do voluntariado" - Emilio Gennari
:: 2 :: "Gaiolas e asas" - Rubem Alves
:: 3 :: "Odeio os indiferentes" - Antonio Gramsci
:: 4 :: O que é o Movimento Bandeirante - de um livro antigo
:: 5 :: textos ótimos da parte de Cerimoniais

Introdução postada em 25/10/01 por Vanessa (DB Acauã)
O Movimento Bandeirante no início do século XXI (clichês!) está tomando rumos sinistros. Acredita-se que muitos dos valores iniciais estejam sendo suprimidos, distorcidos ou deixados de lado para dar lugar a um novo conceito de Bandeirantismo. O que está acontecendo? O que, afinal, é o Bandeirantismo hoje?

Para quem se perdeu no caminho e já não sabe mais o que é o MB, tem dúvidas sobre o que ele pode vir a se tornar ou está desconfiado com o caminho assistencialista que se abre, estes textos podem ser de alguma ajuda. Se você acompanha um pouco do que vem acontecendo por aqui e está preocupado, ou olha torto quando cantam aquela musiquinha do Criança Esperança nas atividades da Região, perca um pouco do seu tempo lendo as definições de Bandeirantismo dadas por um livrinho tosco da década de 80 (que a gente transcreveu aqui) e o texto abaixo, tirado de não-sei-onde, que preenchia o Nononono de uma matéria incompleta. Agradecemos ao adorável André Deak por nos fornecer larvinhas mexicanas e o artigo fofinho que nos inspirou (mais abaixo, autoria de Emilio Gennari).

Atenção: as críticas NÃO constituem uma unidade de pensamento, são idéias plurais de cada um dos autores.


Postado em 04/04/02 por Vanessa Barbara

Manipulação / ideologia / cultura corporativa:

Uma instituição de poder ideológico (Igreja, escola, exército, MB), inconscientemente, usa da repressão para manter a situação que a sustenta, propagando uma ideologia conveniente por meio de pequenas ações aparentemente banais. Os agentes dessa repressão não o fazem por pura maldade (não acordam dizendo: "muhohoaha! Hj vamos iludir e oprimir mais pessoas!!"), mas apenas porque interiorizaram que aquela situação é a única ou a mais indicada, apenas porque REALMENTE acreditam que tudo está certo. Porque, claro, está tudo certo pra eles. Quando incitados a refletir sobre o assunto, fecham os olhos e reprimem a golpes de martelo os que contrariam a ordem. Ou a golpes nem tão físicos assim, mas por meio de palavras e ações tãão inocentes... a história do "uma vez bandeirante, sempre bandeirante", que era uma frase curiosa mas acabou se tornando algo abominável, como se o bandeirantismo fosse um fim em si. Como ser corinthiano ou comer frango todos os dias. O que é ser bandeirante, afinal???? Por favor, não respondam, as respostas da "alegria", "serviço", "disposição" já perderam totalmente o sentido.

Voltando. Não é que o MB esteja propagando as ações assistencialistas apenas por ocasião ou porque acredita que elas possam mudar alguma coisa, mas porque o MB já é isso o que propaga, todos já concordam e acham que sempre foi assim. E por que há esse incentivo à "caridade" e à passividade? Por que os bandeirantes concordam? Porque

1) o movimento é feito majoritariamente pela classe média-alta que deseja manter tudo o que possui, adotando qualquer tática (o menos sangrenta possível, aparentemente) para manter o status quo e não perder seu emprego confortável, seu Palio 98 e as baladas de fim de semana.

2) porque o item 1 foi interiorizado até por pessoas que nunca concordariam com isso, inclusive pelos oprimidos!, através da propaganda maciça da TV, do governo, e principalmente dos dirigentes bandeirantes que compõem o item 1.

Tem, tb, a história da "cultura corporativa", que é apenas a resistência que as pessoas têm à mudança, referente aos seus empregos, à vida pessoal, ao celular etc, e por isso defendem com unhas e dentes convicções que já perderam faz tempo o status de "convicções", sendo apenas um conjunto de idéias vagas que fazem o "ser bandeirante" igual a "ser advogado", "ser fashion", "viajar para os EUA", "trabalhar no escritório", ou "paquerar o garoto do Xerox".

O bandeirantismo perdeu TODO e QUALQUER sentido. A reflexão sobre o movimento é baseada apenas em meia dúzia de textos de auto-ajuda, ninguém nunca quis pensar seriamente sobre isso, o que é absurdo pras pessoas que ali continuam, mecanicamente (vcs descem em qualquer ponto do onibus e saem girando em torno do próprio eixo, tb?).


Postado em 02/04/02 por Tiago (DB nonono - Nono), que disse q não tem a ver com a proposta mas quer se expressar!

"Dificil é unir todas as verdades numa só"

Com base em minha ignorância, absorvo os acontecimentos e construo meus pensamentos.
E passo o tempo procurando ver a realidade, procurando entender as razões, tentando dar um sentido sólido as minhas ações.
E creio que só sou realmente sincero quando estou a pensar!
Rebato a tudo que seja externo, num primeiro olhar. Deixo as mudanças me penatrarem lentamente, ao meu ritmo. E com isso ganho tempo para vê-la de diversos lados.
E penso que não há como se abster da verdade, ela existe e também atende por realidade.
Mas percebo que a minha é diferente da sua! ...?
E de uma certa forma é sim, mas isso porque estamos vendo de direções alternadas. Uma doença que me atinja é um problema meu, o hospital público que atende mal é problema de todos, mas se você tem um bom plano de saúde, provavelmente não ligará para o problema do hospital, mas o problema esta lá.
Uma outra situação: você terminou o ensino médio, tem varias aptidões, talento e força de vontade, mas não consegue vaga em nenhuma faculdade, isso é problema seu, mas a falta de faculdades públicas, de escolas técnicas, da má qualidade do ensino, isso é problema nosso, mas se eu tenho um emprego ou alguém com dinheiro suficiente para pagar a minha faculdade, provavelmente não ligarei para a falta de cuidado com a educação de outros.

O que vejo é só desencontro, uns vêem que a melhor solução é o "individualismo coletivo" e outros crêm que só unidos poderão realizar o que eles individualmente desejam. Os pensamentos são contraditórios, mesmo dentro de uma só cabeça, o que dirá um universo imperceptível de cabeças a pensar.
Declaro ao meu ver impossível dizer que seremos capazes de viver em harmonia, vejo essa ideologia como utópica, o que desejaria para um melhor convívio com o próximo, com o mundo, é somente respeito.
Não há palavras que demonstre o que é a vida. E não é nas palavras que se encontra a verdade.
Todas as palavras, frases, são ditas com objetivo de expressar algo, isso é óbvio. Portanto é muito fácil se comunicar por meio desse tipo de linguagem, é muito fácil eu lhe dizer para onde estou indo, o que estou fazendo, o que quero comer, enfim este tipo de coisa. Mas a diculdade esta em expressar o que sentimos, ou melhor a verdade. Aquilo que esta dentro da sua cabeça, tudo aquilo que se encaixa no seu contexto.

Alguns reprimem, outros agridem, outros se calam. Alguém sofre.
Contudo, sou incapaz de cobrar as palavaras de alguém, apesar de querer contar com elas.
Só confio no que posso sentir, e não sinto nada por meras palavras, por que sei que elas representam apenas uma pequena parcela da realidade, e por muitas vezes não são capazes de expressar a verdade, e passo a dar o mesmo valor tanto às críticas quanto aos elogios.
Não acredito que podemos realizar o que sentimos, porque tudo é tão espontâneo, tão rápido que não se pode prever. Tudo muda, então nada é definitivo.
E tudo o que pode ser escrito, pode ser apagado. O que se pode dizer, pode ser calado.
Mas não há como mandar num coração e levar na rédea a emoção.
Para levar a outros sua opnião creio que se deve chamar a quem almeja para o seu lado, fazê-lo ver a coisa do mesmo ângulo que o seu, e não tentar fazê-lo acreditar que, de onde ele está, a coisa é a mesma.
Somente devo ao mundo o respeito, e dele é só isso que exijo.
Não há como todos estarem do mesmo lado, então não peço que me entendam, mas não tente exigir de mim me colocar no seu lugar, muito menos mudar minha opnião.


Postado em 20/1/02 por Marcelo Venturi (DB Catarina - SC)

Alguém sabe a média do nível de educação de nossos coordês bandeirantes? Às vezes eu me pergunto se o Nacional entende realmente de Educação? E de sociedade? Sociologia? Ambiente, de verdade? E administração?
O pior é que eu acho que até deve ter... mas não adianta nada, se nas regiões tb não tem ninguém, portanto, nas ANs votam as cacas, e fazem o negócio andar pra baixo, pra longe da realidade... Fazem descobrir que no fundo do poço, ainda existe um porão, e com adega... É deprimente as vezes!

Por um MB mais adaptado à realidade do Brasil!


Postado em 20/1/02 por Teobaldo (DB Catauã, região Acapulco)

"Nenhum problema pode ser resolvido pelo mesmo estado de consciência que o criou" (Albert Einstein)

Aí está a prova que devemos tomar o poder e que o Nacional (e uma ou outra região) tem que nos ouvir, se quiser ser bandeirante de verdade e parar de olhar apenas pro seu umbigo... perceber, que existe graças aos jovens e para eles, e não apenas por si!

Deviam criar um SAC (serviço de atendimento direto ao Consumidor, ou ao Cidadão... mas no nosso caso ao bandeirante... um SAB, com 0800 e tudo, e com um e-mail de sugestões e reclamações para nós bandeirantes... com certeza eles ficariam sabendo muito mais da realidade do MB desta forma!!!
Eles precisam aprender que ouvir é tão importante quanto falar. E que muitas vezes se dependermos dos intermediários, as informações importantes não chegam até lá!)


Postado em 7/12/01 por Vanessa (DB Acauã - SP)

"Brecht disse, sobre arte, algo que cabe a praticamente tudo (búzios! pôquer! segredos da culinária!), incluindo o bandeirantismo: 'Quando algo é apolítico, não quer dizer outra coisa senão estar aliado ao grupo dominante'.

É totalmente verdade, quando se vê a situação do movimento por aí. Já que a maioria das crianças e jovens reflete a ideologia atual (se tornaram conformistas, apáticos, superficiais, cada vez mais engaiolados a dogmas da sociedade e renunciando a liberdade deles mesmos), o MB achou que devia ser uma ´instituição moderna´ e resolveu adaptar todo o método educativo a essa ideologia... fez que ´sim´ e disse q eh preciso seguir os tempos, simplificar as coisas e fazer um movimento medíocre que não só fosse conivente com tudo isso, mas apoiasse as atrocidades, e ainda contribuísse pra que as coisas continuassem como estão... apóia com entusiasmo as iniciativas de caridade e do Ano do Voluntariado, perpetuando assim a desigualdade mórbida, e ainda ajudando para que ela se alastre! Claro, a instituição não quer saber (nem remotamente!) de pensar sobre novas maneiras de ver o mundo, não quer procurar saídas, não quer entender esse ciclo vicioso que o sistema fomenta, não quer nem discutir sobre isso (alguém se manifestou na Igreja Verde?), não quer participar do Fórum Social - mas pra Feira da Cidadania eles vão! O que significam essas atitudes, senão virar a cara pra o fato de que deve haver mudança, e dizer 'sim! Nós somos coniventes com o sistema capitalista que explora o ser humano, mas estamos fazendo a nossa parte dentro dele, tipo dando uma migalha aqui e ali, pra tirar nosso peso da consciência.. claro, sabemos que nunca vai haver igualdade dentro dele, mas é uma falha original do sistema, a gente não pode fazer nada né!´ O Movimento está criando cidadãos críticos pra quê, então? Pra serem um pouco mais ´humanos´ e sensíveis ante as injustiças, mas nunca pra pensar sobre elas! Há algo de muito podre na filosofia do MB... ou a instituição quer criar exércitos pra apoiar o sistema capitalista em que eles estão confortavelmente acomodados, ou ela quer apenas prestígio próprio ou... não acredito que sejam inocentes a ponto de achar que podem estar ajudando a transformar tudo por meio dessas iniciativas de auto-promoção caridosa... Enquanto não escutar alguém dizendo que quer ajudar a pensar em maneiras de transformar tudo, da base, e prover uma educação que dê liberdade crítica aos bands, não vou acreditar no Movimento...

Continua sendo a tal da rosquinha mofada..."


Postado em 7/12/01 por Marcelo Venturi (DB Catarina - SC)
Leia aqui um texto batuta de Rubem Alves!

"Às vezes me ofendo quando o meu coordê diz em ferradura: ´- O bandeirante tem um monte de normas, e regras, e ....´
Até que ponto necessitamos realmente deste monte de regras? Por que nosso sistema de educação ainda preserva meios militaristas ou da educação Formal para impor respeito? Fico tão decepcionado... parece que as crianças são realmente tigres... Agora passo a entender... Às vezes me consideram irresponsável ou anarquista (como se isto fosse crítica, considero um elogio, pois anarquista ipsis literis é sinônimo de auto-consciência tão grande que não necessita de mandato... mas deixa pra lá que é outra discussão) apenas por conseguir discutir com meus bandeirantes e deixar que eles tomem a decisão, que eles façam seu caminho e trilhem o que eles consideram importante... Obrigado, se isto é ser anarquista realmente me orgulho..."


Postado em 3/12/01 por Stephanie B2 (DB Acauã - SP)
"Toda vez que eu olho pro lenço e pro broche, que simbolizam a promessa (apesar dakela regra nova) fico pensando no sentido da promessa, ou se já teve um sentido de verdade.
Milhares de pessoas cantando "depende de nós", num mundo onde acham que pandas não mordem e idolatram o Mickey?!?
Fala sério, já passou do limite faz tempo, porque quando chegarem em casa e colarem o distintivo"Eu fui" vai tudo voltar ao normal, sendo novamente pessoas capitalistas que, ao invés de tentar mudar o sistema, põem um band-aid de bichinho por cima e eskecem que por baixo vai continuar enrrugado e malcheiroso!
Pra mim, uma ideologia tão legal foi pro saco com essa gente que se contenta com o Hino Nacional cantado pelo Padre Marcelo e um coral de velhinhos de branco!

A rosquinha do bandeirantismo já mofou há muito tempo..."


Postado em 25/11/01 por Crizanto Stefanes (DB Catarina - SC)
"Estamos cansados de ver a todo dia o paternalismo desenfreado das instituições brasileiras, mas o que fazer pra isso mudar???? Que tal pensarmos na raiz dos problemas socias em nossa volta?? Será que nós mesmos não somos os responsáveis por isso??? A partir do momento em que escolhemos nossos representantes diretos, estamos avaliando toda e qualquer ação social que esses nossos representantes aprovam. Posto isso, podemos dizer que, se estamos aptos desde os 16 anos a fazer ouvir nossas escolhas, então pq não aproveitar esse grande instrumento de mudança para darmos um basta nessas incoerências absurdas que nós mesmos provocamos e somos responsáveis...
Você fez, você assume !!! Está na hora de assumirmos nossos atos, então assim devemos fazer, estamos todos no mesmo barco, vamos pegar junto o leme e darmos a direção correta ao bem estar comum, se tivermos esta consciência de ser e estar no mundo, poderemos deixá-lo um pouco melhor do que encontramos, nosso lema não é este??? Pois então, mexa-se comece por vc, assuma suas escolhas e, se estas não são as melhores, mude, mude quantas vezes achar necessário, mas mude...
Somente assim poderemos estar indo no caminho certo e melhorarmos o mundo, sim, isto é possível, mas somente possível se vc estiver junto, consciente que vc faz parte diretamente dele e pelo que acontece com ele. Sim, você é responsavel por fazer um mundo melhor!!! Mexa-se!!!! Faça qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, mas faça alguma coisa pra mudar essa eca de sistema ultra mega paternalista em que estamos envolvidos."


Fragmentos postados em 11/11/01 por Stephanie B2 (DB Acauã)

"Os chamados rebeldes são reflexos da sociedade caótica que forma revoltados que dormem no sistema, se os traidores são quem mais apóia o poder. A praga do século é a sociedade que nos esconde de nós mesmos, que o medo é plantado desde sempre e a vida é sempre de mentira. E, ao saber disso, sei que quem me fez é quem me condena... Capitalismo mata!"

"Eu adoro o Acauã! É tudo tão tosco! Meu DB é meio excluído, ninguém liga pra gente, apesar disso, eu suspeito que o Acauã é influente nos lugares! A Região é legalzinha! Bom, o povo é meio fresco, meio manipulador, mas dá pra agüentar!"

"A Semana Bandeirante 2001 no Parque da Água Branca foi comemorada no dia 18 de agosto. Tivemos jogos, atividades e comida! E só pra dar um toquezinho extra, tudo parte de uma grande B.A. pelo ano do voluntariado! Será que no ano dos carunchos a FBB abre uma grande fazenda de Arroz? Hum! Faremos uma petição quanto a isso!"


Postado em 30/10/01 por Vanessa (DB Acauã - SP)
Só uma observação rápida... as críticas foram feitas não ao MB ou às propostas - a metodologia band é animal, vc sabe -, mas sim ao rumo que a "instituição" aqui tah tentando colocar nos distritos... aquele clima de paz, harmonia, esperança, faça-parte-faça-sua-parte, tudo mto bonito e limpinho... o mundo sendo salvo, os bands cantando, as baleias e as chinchilas sorrindo.. esse conceito de Cidadania passiva, de atravessar na faixa d pedestre, saber os telefones úteis e ficar fora do partidarismo etc etc...

Claro que não são todos da Região, não sei nem se é a maioria, mas a impressão que eu tenho eh de que, com essa imagem de "prêmio eficiente do ano 2000", todo esse marketing de ONG e ano do voluntariado, a região SP (nao sei sobre o Nacional..) tah criando um movimento nojento, tah incentivando a passividade... sem ser radical mas jah sendo, tah alienando os bands e criando um monte de robozinho a serviço dessa ideologia, mesmo sem querer!...


Postado em 26/10/01 por Marcelo Venturi (DB Catarina - SC)
"Já tinha muitos pensamentos a respeito deste tema. Participo atualmente do principal ´chavão´ (ou seria pavão?) do Governo Federal, que é o Comunidade Solidária. E, mesmo participando do mesmo - e aliás por isso mesmo -, tenho muitas críticas... Estou com o mesmo peso que vc, pois o MB é um trabalho voluntário... Mas
ainda está bem diferenciado neste sentido, pois sua atuação ainda é em uma fatia da sociedade realmente desassistida e que nunca foi abraçada por outras partes da mesma. A educação do MB é única. E por que tanta resistência do Nacional em relação aos coordenadores receberem ´Ajudas de custos´? Mesmo não saindo nada do bolso de nossas crianças? E sim dessas empresas que ´podem melhorar sua aparência´?

Enquanto estava trabalhando no sertão nordestino pelo Universidade Solidária, ouvi muito a expressão: ´este prefeito que tá aí é ladrão, a gente sabe, mas é o melhor que tivemos até agora, por isso votamos nele de novo´...). Lembro-me que, apesar de todos esses fatores essenciais de serem ressaltados, muitos deles continuarão ocorrendo, e devemos estar conscientes, para sabermos tirar proveito dos mesmos. É o que fazemos no UniSol da UFSC. O projeto do governo continuará mandando estudantes pro nordeste, então, fazemos ótimos projetos que levam essa consciência que agora nos exacerba aos pobres fudidos de lá, que se estes tiverem a mesma consciência que nós, acontecerá uma revolução neste país... e é o que desejamos. Que seja uma violência através da verdadeira visão da
realidade.

Não acha? Ótimo, então diga!
Abaixo à TV. Mais livros, mais revistas sábias como estas e como a Caros Amigos. Chega de preguiça, precisamos de leitores e pessoas que coloquem a mão na massa, mas com consciência!"


2001: luzes e sombras do ano do voluntariado
Emilio Gennari (Membro do Núcleo de Educação Popular 13 de Maio)


Você já deve ter passado pela experiência de ficar sem luz elétrica bem naquelas horas em que a escuridão dificulta até mesmo o trabalho de achar uma vela. Encontrada uma, não há quem não se apresse a riscar o fósforo na esperança de que a sua pálida luz consiga ajudar a enxergar e a tropeçar o menos possível. Apesar do alívio imediato de estar saindo da escuridão, você logo percebe que aquela chama cria sombras que chegam a ser bem maiores dos objetos que as produzem e que voltam a colocar na escuridão o que parecia começar a ficar claro.


A realidade do dia-a-dia é bem parecida com este vaivém de luzes e sombras que ora iluminam, ora ocultam as relações entre as pessoas. O gozado é que há luzes que servem justamente para criar sombras capazes de ocultar o verdadeiro sentido dos acontecimentos e há sombras que, ao protegerem os olhos da luz, nos permitem criar condições de enxergar melhor.


O fato é que, alguns meses atrás, o mundo acordou diante de uma luz acesa pela ONU que declarava 2001 o “Ano do Voluntariado”. Em pouquíssimo tempo, várias organizações não governamentais foram iluminadas, projetos sociais criados por empresas ficaram em evidência, o trabalho assistencial de muita gente ganhou destaque e, de repente, esta luz simples e singela pareceu desvelar o mundo mergulhado no individualismo e na competição.


À primeira vista, tudo parece ser muito justo e louvável, não fosse pela enorme sombra que esta luz vai criando e graças à qual várias partes do mundo voltaram a ficar escuras. Desconfiado de que alguma coisa está errada, resolvi ficar na sombra por um tempo. Não, não foi para ficar escondido, e sim para encontrar elementos que ajudassem a acender outras luzes com as quais fosse possível começar a iluminar estas áreas de sombra que pretendem continuar escondendo realidades incômodas. Parece incrível, mas, às vezes, é necessário ficar na sombra para dar vida a novas luzes.


Confesso que fiquei surpreso quando a vela do voluntariado iluminou uma realidade que não imaginava ter estas dimensões: estima-se que, no Brasil, cerca de 31 milhões de pessoas estão direta ou indiretamente envolvidas com programas sociais cuja realização demanda algum tipo de trabalho voluntário (1). Da coleta de alimentos e roupas usadas a ações mais consistentes no campo da saúde, educação, alimentação, combate à violência, etc., a solidariedade parece ganhar um número crescente de adeptos numa época em que o ser humano parecia estar se transformando numa “ilha de consumo”, insensível às necessidades do outro e aos apelos dos mais pobres. É verdade que nem todo este exército de 31 milhões de seres humanos está sempre disposto a dedicar ao próximo algumas horas do seu tempo e que é movido pelas mais variadas motivações. Mas é importante registrar que a solidariedade ainda tem um lugar

no coração de muita gente que, desinteressadamente e em boa fé, se dispõe a enfrentar como pode as barreiras do silêncio, do esquecimento e da morte quotidiana que aprisionam situações de sofrimento cada dia mais gritantes.

"Os rostos destes milhões de soldados, que continuarão anônimos em sua dedicação, projetam uma sombra assustadora que cobre realidades incômodas."

Os rostos destes milhões de soldados, que continuarão anônimos em sua dedicação, projetam uma sombra assustadora que cobre realidades incômodas. Quem já olhou para o mundo através da janela da sua casa, sabe que, há tempo, os gestos de solidariedade integram a vida quotidiana das periferias das grandes cidades, onde a fome e a miséria sentam à mesa de milhões de famílias. Isso significa que para os trabalhadores e as trabalhadoras do nosso país socorrer o outro de forma gratuita e silenciosa, mais que uma exceção, tende a ser uma regra. O problema é que esta realidade, impossível de ser estimada em valores monetários, sempre foi vista com preocupação quando constituía uma das bases para a construção de movimentos de massa que questionavam o sistema e a exploração imposta à grande maioria da população.

"Deixada na sombra por anos a fio, a solidariedade é valorizada agora pelas mesmas elites que sempre lutaram contra a possibilidade dela se tornar um elemento de organização popular capaz de abrir os caminhos de um questionamento profundo das bases que sustentam o mundo em que vivemos"

Deixada na sombra por anos a fio, a solidariedade é valorizada agora justamente pelas mesmas elites que sempre lutaram contra a possibilidade dela se tornar um elemento de organização popular capaz de abrir os caminhos de um questionamento mais profundo das bases que sustentam o mundo em que vivemos. Em nome da “paz”, da “prevenção dos conflitos”, da necessidade de criar “um novo capitalismo com rosto humano” e de reduzir o passivo social” gerado pela marginalização de milhões de pessoas, um número considerável de Organizações Não Governamentais, Igrejas, institutos e fundações empresariais se compromete cada vez mais em desenvolver programas de ação social e de ajuda comunitária que, ao longo de 2001 deve superar o montante de dois bilhões de Reais.


A sombra do dinheiro e dos nomes famosos envolvidos neste “compromisso social da sociedade civil” faz cair em segundo plano até mesmo o exército de voluntários do qual falava antes. Diante do cinza que começa a escurecer os seus rostos de homens e mulheres do povo, uma pergunta teima em levar mais gente a procurar outros fósforos e outras velas para iluminar a realidade oculta atrás desta nova e imponente sombra: por que a elite está tão interessada em promover o trabalho voluntário?

"Se eles aceitassem morrer calados no esquecimento das periferias, no silêncio barulhento das sarjetas e dos viadutos, ou se o seu grito ficasse entre as frágeis paredes dos cortiços e dos barracos das favelas, não seria necessário se preocupar com eles."

Aparentemente, a resposta é simples: porque a desigualdade social ameaça a sua segurança. Dito de outra forma, se os pobres não roubassem seus carrões, não assaltassem ou seqüestrassem seus membros, não matassem seus filhos nesta guerra não declarada que se desenvolve em cada esquina dos grandes centros urbanos, a miséria e a exclusão não seriam um problema e sim uma solução: ajudariam a reduzir o número de pobres que, longe de ser uma espécie em extinção, aumenta a cada dia. Se eles aceitassem morrer calados no esquecimento das periferias, no silêncio barulhento das sarjetas e dos viadutos, ou se o seu grito ficasse entre as frágeis paredes dos cortiços e dos barracos das favelas, não seria necessário se preocupar com eles. A fome e a doença se encarregariam de ajudar na “seleção natural da espécie” da qual sairiam só os mais fortes e, possivelmente, os que mais se adaptam ao ritmo frenético da exploração. Enfim, não fosse pela ameaça que a desigualdade representa para a vida dos membros das elites, não haveria por que pôr a mão no bolso de forma planejada e sistemática. A consciência dos ricos poderia ser acalmada com as moedinhas que sobram e que produzem no pobre aquele sorriso que os faz sentir em harmonia com a humanidade.


O problema desta resposta, que é verdadeira, é que ela continua deixando na mais completa escuridão uma área imensa na qual, com muito custo, se consegue ver entre as sombras o cifrão símbolo do dinheiro. Pelo seu tamanho e imponência já dá pra dizer que toda esta ênfase no compromisso social e nos projetos de trabalho voluntário das empresas esconde que eles estão se tornando um “grande negócio”. Como eu sei que enxergar no escuro não é fácil, vou costurar aqui algumas reflexões que podem iluminar seus olhos e ajudar a desvendar a realidade que se esconde neste mundo de luzes e sombras.

Quando comecei a refletir sobre este tema, acreditava que o envolvimento das empresas nas ações de solidariedade dirigidas às comunidades carentes era essencialmente vinculado ao fato de que o trabalho voluntário de seus funcionários iria melhorar a sua imagem no mercado. Uma espécie de “marketing social” graças ao qual os patrões ganhariam a simpatia coletiva à marca” da empresa, o apoio cidadão contra possíveis ações reivindicatórias de seus empregados, a legitimação da idéia que a niciativa privada tem um compromisso social sério e eficiente que a coloca acima ao próprio desempenho do Estado e que, justamente por isso, a lógica do “privado” deveria substituir a ineficiência “dos serviços públicos” que atendem a população. Estes vários coelhos seriam mortos com uma única cajadada que pouco custaria às empresas (já que gastos com este tipo de projetos e doações podem ser descontados do imposto de renda até 2% do lucro real), mas cujo retorno seria, sem dúvida compensador.


A impressão de que os coelhos mortos eram maiores em número e tamanho veio ao analisar alguns dados divulgados pela COMAPPS, empresa que administra Shopping Centers em várias regiões do país. Depois de constatar o desgaste das campanhas publicitárias que se baseiam no sorteio de carros ou em outros atrativos, a COMAPPS “conseguiu dar um novo fôlego às vendas convocando a comunidade a doar presentes de Natal para crianças carentes. Resultado: as vendas cresceram até 36% em relação ao mesmo período do ano anterior no Shopping Metrô Tatuapé, em São Paulo”. Ao comentar a façanha, o representante da empresa, Luiz Alberto Marinho, diz: “Por isso, é preciso agregar à marca algo mais. Não se deve desprezar a dimensão moral que faz o consumidor se identificar com o produto” (2). Eu não sei se você consegue contar todos os coelhos mortos, mas além de poupar o dinheiro dos prêmios (carros, apartamentos etc.), de “fazer caridade” com o que é dos outros e alimentar o sentimento de dívida de gratidão dos pobres em relação aos ricos, os capitalistas aumentaram significativamente os seus lucros graças à “dimensão moral do consumidor” que ao levar sua sacola de donativos ao Shopping levava para casa as sacolas das compras que iam enchendo os bolsos dos lojistas e dos demais empresários. Sim, eu sei que os pobres também ficaram contentes, sorriram, tiraram fotos com seus benfeitores etc., mas espero não ter que explicar a você os efeitos devastadores deste tipo de assistencialismo que faz com que os miseráveis se conformem com sua situação, não lutem, abram mão de sua dignidade para que suas próprias mãos estejam livres e bem estendidas à espera da esmola, seja qual for a forma sob a qual ela pode vir a ser depositada nelas.


Se você acha que este tipo de atitude é algo típico das festas de fim de ano, pois está redondamente enganado. Ao olhar as vitrines das lojas de relógios entre fevereiro e abril deste ano, você deve ter encontrado com certa facilidade um selo com os dizeres: “Este tic-tac vale um sorriso”, parceria da fábrica de relógios Swatch com a Fundação ABRINQ pelos direitos da criança. A campanha vinculava a compra do relógio à doação de 10% do lucro das 16 lojas instaladas pela Swatch no Brasil (3). Simples, não é? Você compra “aquele” relógio, sabe das horas, fica um charme e, de quebra, ajuda as crianças e os adolescentes. Nessa todos saem ganhando: a fábrica de relógios vende os estoques, a ABRINQ arrecada um Real por peça vendida e as crianças sorriem para toda a freguesia que, além do mais, realizou uma “boa ação”.

O problema aqui é que existem pentelhos que não se conformam com as aparências e começam a fazer perguntas. Esse tal de “lucro” não é justamente aquela fatia do valor do relógio que foi produzida pelos trabalhadores e trabalhadoras da Swatch, mas não foi paga na forma de salário? Quantas vagas foram cortadas nas unidades da empresa nos últimos 10 anos? Quantos pais e mães de família foram jogados para o olho da rua para que a Swatch pudesse “reduzir custos”? Quantas crianças e adolescentes viram piorar suas condições de vida a ponto de chegar a apagar suas esperanças de futuro justamente porque os pais foram parar entre os “sem renda”? Quantos relógios a mais a empresa está produzindo com um quadro de pessoal enxuto e assustado pelo fato de não saber quem será o próximo na lista de cortes? Para quanto foi o lucro anual da empresa? A Swatch assinou o convênio com a ABRINQ após ter visto o desespero dos filhos e das filhas dos ex-funcionários que, pontualmente, se apresentam na portaria da empresa na esperança de encontrar uma vaga? Ou foi para esvaziar um estoque encalhado diante da chegada dos novos modelos? Se a Swatch está tão preocupada com o futuro das crianças e dos adolescentes, porque descuidou justamente das condições que garantiriam o futuro dos filhos e filhas de seus funcionários?

Sossegue, a minha não é uma briga pessoal com os donos desta fábrica de relógios, mesmo porque eu nunca fui funcionário dela. Eu colocaria as mesmas perguntas aos donos das empresas que integram a Fundação ABRINQ e a cada uma das demais que se envolvem em projetos de assistências às pessoas carentes. Razões para isso não me faltam. Quer ver? O Banco do Brasil, por exemplo, já anunciou que até o final de 2001 vai empregar 4 mil adolescentes através do “Programa Adolescente Trabalhador” destinado a jovens com baixa renda familiar e cuja idade esteja entre os 16 e pouco menos de 18 anos. Ao trabalharem como bancários nas agências de várias cidades do país os felizardos ganharão a fortuna de um salário mínimo mensal em troca de uma jornada de 5 horas diárias. Parece bom, não é? O pessoal vai trabalhar meio período e terá o resto do tempo para continuar os estudos. O problema aqui é que estes adolescentes irão ganhar menos da metade do menor salário de um bancário que hoje, 24 de maio de 2001, é de 582 Reais e 81 centavos. Sim eu sei que os novos contratados, possivelmente, estarão ingressando no seu primeiro emprego e irão trabalhar menos horas, mas o saldo destas diferenças vai ficar por conta dos demais benefícios que um bancário “normal” iria receber além do salário mencionado.

Deixo a você a tarefa de encontrar uma definição apropriada para este tipo de ajuda, mas tenho a leve impressão de que a Swatch, o Banco do Brasil e os demais filantropos que agem em nome da “responsabilidade social da empresa” vão elevar seus lucros e, consciente ou inconscientemente, continuarão transformando sua intervenção assistencial num biombo em cuja sombra escondem os mecanismos de exploração e exclusão dos quais não abrem mão. Sim, eu sei que estou sendo radical. Mas ser radical não é nenhum defeito, e sim a expressão de um desejo profundo de ir à raiz dos problemas, de apontar as causas da doença para que elas possam ser destruídas. Entre limitar-se a amenizar os sintomas ou extirpar o mal que os provoca, eu ainda prefiro esta segunda opção.

Se você está achando que a atenção aos problemas sociais é apenas mais uma estratégia para aumentar os lucros, pois está redondamente enganado. Nas são poucas as indústrias que, após os primeiros tímidos passos nos projetos de assistência às comunidades carentes da cidade onde estão instaladas, perceberam algo fundamental para o próprio processo de acumulação. Ao envolver os funcionários nos projetos por elas viabilizados, as empresas começaram a perceber que este engajamento não aumentava só o espírito de solidariedade dos trabalhadores e das trabalhadoras, mas elevava também o seu orgulho, a sua auto-estima, o seu sentimento de equipe e a própria motivação com a qual desempenhavam as funções exigidas pelo processo de trabalho. Traduzido em miúdos, estes companheiros e companheiras trabalham com mais vontade, produzem mais, se queixam menos e tendem a vestir a camisa da empresa 24 horas por dia. Não precisa ser um especialista em Recursos Humanos para saber que a soma destas atitudes abre caminhos para viabilizar uma das regras básicas do sistema capitalista: produzir mais, em menos tempo e... com menos gente.

Não sei te dizer se, ao serem demitidos, alguns desses voluntários sofrerão menos, se sentirão perdidos, injustiçados ou se agradecerão o pé que chuta o seu traseiro pelo simples fato de não ter feito isso antes, mas de uma coisa você pode ter certeza: o capital já colocou em suas consciências alguns biombos que impedem a eles de relacionar os sintomas com as causas da desigualdade, da miséria e da violência que atingem a nossa sociedade. Quer saber o porquê? É só você dirigir novamente o seu olhar para a realidade que as empresas de ponta vem desenvolvendo ao longo dos últimos anos. Além de doarem o seu tempo livre para o sucesso dos programas sociais da empresa, os funcionários-voluntários chegam até mesmo a bancar parte destes programas. Um bom exemplo é o projeto Nutrir da Nestlé que, em média, conta com um milhão de Reais por ano. Metade desse montante “vem das doações de 6.500 pessoas, que representam 53% do total de trabalhadores. Os voluntários somam 710, mas a meta é chegar a 1.230 ainda este
ano”(5).

Não me diga que você está pensando no que eu estou pensando. Sim, é isso mesmo. Para completar a obra, só falta que os produtos do projeto, por acaso, sejam da marca “Nestlé”. Aí seriam os próprios trabalhadores a tirarem dinheiro do seu bolso para ajudar a empresa na qual trabalham a realizar uma parte dos seus lucros através da “venda voluntária” de seus produtos num projeto por ela elaborado e dirigido. O que você acha, será que com este grau de envolvimento vai ser fácil de algum funcionário ou funcionária começar a acordar diante do choque provocado pela sua eventual demissão? Tomara que sim, mas aí, talvez, já será tarde demais.

Você entende que se as sombras do trabalho voluntário organizado pelas elites se limitassem a cobrir a realidade que acabamos de descrever, nós todos já teríamos elementos suficientes para ficarmos indignados. Mas a realidade que, consciente ou inconscientemente, está sendo criada por este exército de pessoas, ONGs, igrejas, entidades filantrópicas, institutos e demais etceteras é bem mais complexa e intrigante.

Ao assumir a idéia do voluntariado como possível caminho para a solução dos problemas sociais, as pessoas não percebem que estão se tornando uma verdadeira tropa de choque ideológica a serviço do capital. Não só ninguém mais se atreve a questionar os alicerces que sustentam a exploração, como diante das queixas de que as coisas na sociedade vão de mal a pior a resposta imediata é: “faça a sua parte”, “doe a melhor parte de você” e verá que tudo começa a melhorar. Se você está assustado com os famintos, por que não dá a eles um pouco da sua comida? Entristece-lhe o fato de que haja pessoas morrendo de frio? É simples, doe a elas o agasalho que você já não usa ou aquele velho cobertor que ficou encostado. Se as paredes do posto de saúde foram pixadas, por que você não se junta aos vizinhos e com um fim de semana de trabalho voluntário a turma não dá conta do recado? É pouco? Claro que sim, mas, como diz a elite, de grão em grão a galinha enche o papo.

"Não só ninguém mais se atreve a questionar os alicerces que sustentam a exploração, como diante das queixas de que as coisas na sociedade vão de mal a pior a resposta imediata é: 'faça a sua parte', 'doe a melhor parte de você' e verá que tudo começa a melhorar."

O maior problema desta forma de trabalhar a consciência da sociedade não está só no fato de que foram as próprias elites que criaram e continuam alimentando o abismo entre pobres e ricos e nem que são os trabalhadores e as trabalhadoras a pagar do seu bolso por um estrago que não fizeram. O que revolta é que o único papo que se enche sem parar é justamente o das classes dominantes. Você acha que estou exagerando? Sim? Bom, então, tenha um pouco mais de paciência e acompanhe o meu raciocínio.

Tanto eu como você, contribuímos com uma pesada carga de impostos, mas não recebemos do Estado serviços públicos de boa qualidade. E isso não é por acaso. Você deve saber que, no ano 2000, o governo federal gastou quase 78 bilhões de Reais só para pagar os juros da dívida interna que anda por volta dos 560 bilhões de Reais (6). Vista dessa forma, parece que a questão da dívida se resolve entre os bancos e o governo sem que haja prejuízos para a sociedade. Na verdade, como se trata de uma relação bem parecida à de um agiota com o seu devedor, o governo deve ter cada vez mais recursos para pagar o que deve e, ainda assim, não consegue quitar o seu débito. Para dar conta dos juros ele não tem muitos caminhos além de aumentar a arrecadação dos impostos e de reduzir os gastos com a saúde, educação, transporte, moradia, etc. O que você talvez não sabe é que são as grandes aplicações financeiras dos capitalistas a fornecer aos bancos os recursos a serem emprestados ao governo e a receber, em troca, boa parte das polpudas quantias que são pagas sob a forma de juros.

Acontece que, do início do Plano Real até os nossos dias, a dívida saltou de cerca de 70 bilhões de Reais para o valor que apontei acima e, ao que tudo indica, tende a aumentar cada vez mais com o passar do tempo. Sendo assim, o Estado vai precisar de cada vez mais dinheiro só para pagar os juros e terá cada vez menos recursos para atender a população. Como? Você pergunta o que é que isso tem a ver com o trabalho voluntário? Simples. Na medida em que trabalhadores e trabalhadoras vão se substituindo ao Estado para dar conta dos serviços que ele deveria prestar, não estão só pagando mais um imposto (na forma de horas trabalhadas, sacolas de alimento, contribuições para os pobres, etc.), como vão fazendo com que o próprio Estado deixe de gastar nestas atividades e tenha assim mais dinheiro disponível para retribuir o que foi emprestado pelos bancos. Estes, por sua vez, repassarão verdadeiras fortunas nas contas das elites cujos recursos continuarão alimentando esta farra do boi conhecida pelo nome de Dívida Interna.

Estou deixando você de boca aberta? Não se preocupe, isso sempre acontece quando descobrimos que, na escuridão destas longas e tenebrosas sombras, estão nos fazendo de bobos... mais uma vez. As pequenas luzes que andei acendendo começam a revelar a teia de relações e interesses que se escondiam atrás da sombra projetada pela vela que ilumina as fundações, as associações filantrópicas, os institutos empresariais e, de quebra, os 31 milhões de voluntários e voluntárias que estão em todo o país.

A estes homens e mulheres de boa vontade vou dirigir um convite cuja realização não ultrapassa a fabulosa quantia de 10 centavos. Estou pedindo para que usem alguns minutos do seu tempo de trabalho voluntário para pegar papel, envelope e selo de 1 centavo para carta social. Se este texto deixou vocês com a pulga atrás da orelha, se as quotidianas mutretas da elite já andaram criando um gosto amargo na boca, se o peso da exploração se faz a cada dia mais ameaçador, se a violência com a qual são reprimidos os protestos populares fez vocês acharem que a democracia, a liberdade e a justiça são ainda um sonho distante, então peguem uma caneta, escrevam os seus desabafos e mandem-nos ao presidente da república, ao governador do Estado ou até mesmo para o dono da firma onde vocês trabalham. Para garantir que cada um e cada uma de vocês não seja o próximo a ser demitido ou reprimido assinem usando simplesmente o nome de João, Maria ou José, um dos muitos nomes sob o qual o povo simples continua sendo sugado e privado do que é necessário para a sua sobrevivência.

Eu sei que é pouco, mas, ao redor dos 10 centavos, a sua dignidade vai se fortalecer e, com ela, vai aparecer a possibilidade de unir suas rebeldia a outras e outras mais. Talvez, a partir de agora, este novo trabalho voluntário vai começar a gerar uma solidariedade capaz de ir construindo as condições que, no dia-a-dia da história, podem sacudir as bases do poder e derrotar os mecanismos que aprofundam a situação de exploração na qual vivemos. Do contrário, preparem a mão direita, pois os próximos a pedirem esmolas poderão ser vocês.

__________________________________________
(1) Beatriz Vieira, “Programas de Ação Social recebem R$ 1,8 bi no Brasil” em Gazeta Mercantil, 22/11/ 2000.
(2) Daniel Antiquera e Regina Scharf, “Empresas atentas ao marketing social”, em Gazeta Mercantil 15/05/ 2001.
(3) Paulo Novas, “Swatch lança campanha em parceria com a Abrinq”, em Gazeta Mercantil 13/02/ 2001.
(4) Janaina Leite, “BB queer empregar este ano 4 mil adolescentes”, em Gazeta Mercantil 23/05/ 2001.
(5) Daniel A., Luciana F. e Ângela C. “Funcionários participam com trabalho e dinheiro”, em Gazeta Mercantil 23/03/ 2001.
(6) Dados Publicados pela Gazeta Mercantil em 26/01/ 2001.
contato: emiliogennari@osite.com.br


Gaiolas e asas
Rubem Alves*

Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche freqüentemente eram tambem atacados por eles.

Digo "atacados" porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a forca de um raio. Aforismos sao visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: "Há escolas que sao gaiolas. Há escolas que sao asas".

Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são passaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos passaros é o vôo.

Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os passaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.

Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações...

Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras àmostra - e as domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres. Sentir alegria ao sair de casa para ir a escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos?

O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é

; a mesma porta que as fecha com os tigres.

Nos tempos de minha infância, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraido pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro.

E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos.

Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensangüentado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.

Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas?

Vão me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor.

Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?

O que os burocratas pressupõem sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem aos conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.

Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Voce sabe o que é"digrafo"? E os usos da partícula "se"? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante"? Qual a utilidade da palavra "mesóclise"?

Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: "Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira".

O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era "ferramenta" e "brinquedo" do corpo.

Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender "ferramentas", aprender "brinquedos". "Ferramentas" são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. "Brinquedos" são todas aquelas coisas que, nao tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.

Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo. Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer...

Assim todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: "Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?" Se não for, é melhor deixar de lado.

As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o vôo dos seus alunos. Há esperança...

*educador, psicanalista, escritor e professor emérito da Unicamp. Artigo publicado na FSP, 4/12


"Odeio os indiferentes"
Antonio Gramsci


Odeio os indiferentes. Como Frederico Hebbel, acredito que "viver é tomar partido". Não podem existir apenas homens, os estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é abulia, é parasitismo, é covardia, não é vida. Por isso, odeio os indiferentes.

A indiferença é o peso morto da história. É a bola de chumbo para o inovador, é a matéria inerte na qual freqüentemente se afogam os entusiasmos mais esplendorosos.

A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade, é aquilo com o que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mais bem construídos. É a matéria bruta que se rebela contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se deve tanto à iniciativa dos poucos que atuam, quanto a indiferença de muitos. O que acontece não acontece tanto porque alguns o queiram, mas porque a massa de homens abdica de sua vontade, deixa de fazer, deixa enrolarem os nós que, depois, só a espada poderá cortar; deixa promulgar leis que, depois, só a revolta fará anular; deixa subir ao poder homens que, depois, só um sublevação poderá derrubar.

Os fatos amadureceram na sombra porque mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões restritas, os objetivos imediatos, as ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens ignora, porque não se preocupa. Por isso, odeio os indiferentes.


Nosso fórum de debates (Igrej@ Verde) é unilateral e xiita enquanto ninguém se manifestar em contrário. Mande sua opinião pra gente e nós publicaremos em letra tamanho 1. *)

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